O Papai Noel que virou meme

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Por Telma Elorza

Londrina conseguiu um feito raro: transformar uma das épocas mais adoradas do ano em um espetáculo de confusão administrativa, criatividade duvidosa e uma (má) fama digna de prêmio. Tudo isso embalado pela “obra de arte” que “enfeitou” o Lago Igapó: um Papai Noel tão estranho que faz o “Grinch” parecer um queridinho do cinema. O que era para ser o ápice da decoração de Natal espalhada pela cidade, virou um debate acalorado nas redes sociais: parte da cidade gostou do “maior Papai Noel do mundo”, a maior parte detestou. Estou entre esses últimos. 

Vamos começar pela responsável por esse fato: a tal Ativa Luzes, a vencedora da licitação para aluguel,  montagem e desmontagem da “coisa” do Igapó. Uma empresa tão discreta que, ao buscá-la em fontes oficiais (com a ajuda do ChatGPT), não existe. Simples assim. Nada de CNPJ, nada de histórico, nada de rastro (nos documentos da prefeitura, relatórios e PDFs disponíveis ao público não há campos abertos com o CNPJ da contratada, muito menos a relação de sócios), o que impede a vinculação formal entre “Ativa Luzes” e um CNPJ homologado. Só um Instagram criado em maio de 2025 e abandonado em agosto. Afinal, a prefeitura contratou quem? Uma miragem corporativa? Um espírito natalino empreendedor?  Quem é a empresa responsável por um design tão horripilante, que levou Londrina a concorrer ao duvidoso título de “Papai Noel mais feio do Brasil”, lançado por um programa de rádio? E pior, quem da administração aprovou tal design?

As únicas empresas com nome parecido e registro oficial que encontrei (aliás, também com a ajuda do ChatGPT para documentos oficiais) são a Ativa Locações Ltda. e a empresa A.A Distribuição e Importação de Artigos de Decoração Ltda (o A.A significa Ativa Atacado). E, olha só, a primeira tem como especialidade locação de banheiros químicos. Banheiros químicos. A julgar pelo resultado da decoração, talvez até fizesse sentido ser ela a tal Ativa Luzes — afinal, o Papai Noel pendurado ali realmente lembra algo que pode ser encontrado em banheiros.

Já a A.A foi responsável por outras montagens natalinas e, segundo contratos anteriores, cuidou das antigas Árvores e passarelas de Natal do Igapó, na administração anterior. Será a mesma empresa? A lógica indica que sim. Por que outro nome? No Brasil, a troca de nome empresarial é tão comum quanto renovar promessa de Ano Novo. Mas geralmente é por problemas com o Fisco ou outras irregularidades.

O problema é que, se A.A e a Ativa Luzes forem mesmo a mesma empresa — só maquiada juridicamente — a economia pode ter falado mais alto do que o bom senso. Tudo indica que, em vez de criar uma estrutura para o Papai Noel, a empresa simplesmente reaproveitou a base da árvore de Natal usada nos anos anteriores. Medida de economia? Só sei que o resultado é uma gambiarra monumental que entregou um Papai Noel deformado, desproporcional e com cor errada.

Veja bem, não sou contra o reaproveitamento. Acho que deveria ser prática comum a todos e, sempre que possível, faço reaproveitamento em minha casa. Mas, gente, o mínimo que se espera de um Papai Noel é que ele se pareça com um. O design todo errado desse Papai Noel parece apenas uma “gambiarra” muito da mal feita.

Se a ideia era surpreender a população, conseguiram. Só que não do jeito certo.

E a prefeitura? Essa segue firme no seu papel habitual: contratando sem clareza, divulgando sem conferir e, aparentemente, aceitando qualquer coisa desde que brilhe e dê fama à administração freestyle do prefeito Tiago Amaral.  O fato de não haver registros claros sobre a Ativa Luzes, de não existir correspondência entre a empresa divulgada e os CNPJs encontrados, e de haver indícios de que tudo isso pode ser só uma troca de nome não parece acender nenhum alerta interno. Luz de pisca-pisca queimado dá sinal de problemas.

Cadê a iconografia de Papai Noel?

É inacreditável que uma cidade do porte de Londrina, com um grande orçamento, ainda caia nessas enrascadas com identidades empresariais mutantes e decorações de gosto tão duvidoso que dá vontade de pedir um reembolso emocional (tem criança saindo traumatizada do passeio natalino), AO MESMO TEMPO que corta verbas da Secretaria de Assistência Social.

Será que não tinha ninguém responsável da Prefeitura para reprovar o design do Papai Noel do Igapó? Ficou uma gambiarra muito da mal feita e virou meme
Foto: Câmara Municipal de Águeda

Se era para gastar essa grande quantia toda (R$1,9 milhão só no Papai Noel do Igapó), a população merecia,  pelo menos, um Papai Noel digno da iconografia que nos foi martelada pelo marketing da Coca-Cola, desde os anos de 1930. Não algo que parece literalmente reaproveitado — do metal ao mau humor estético – só porque alguém decidiu economizar ou porque a prefeitura não se deu ao trabalho de checar o design antes.

O Natal deveria ser aquele momento mágico em que as luzes escondem os defeitos da cidade por alguns dias. Em 2025, porém, nem mesmo isso funcionou. O que ficou escancarado foi uma gestão atrapalhada, uma execução questionável e um Papai Noel que virou símbolo involuntário do improviso típico da administração londrinense.

Se a intenção era fazer algo memorável, parabéns: ninguém vai esquecer esse desastre tão cedo. Pior, deve entrar no Livro dos Recordes como o maior Papai Noel do mundo e, portanto, a monstruosidade vai ser conhecida internacionalmente. O distrito de Águeda, em Aveiros, Portugal, que detinha o recorde do maior Papai Noel do mundo, deve estar se preparando para questionar o “nosso” recorde. Porque lá, sim, tinha uma decoração parecida com a imagem.

Que falta senso crítico nessa administração, todo mundo sabe. Mas, poxa, precisavam transformar nosso cartão postal em meme?

Foto principal: Rodolfo Gaion / CMTU

Telma Elorza 

É jornalista, escritora e contadora de histórias, trabalhou na Folha de Londrina por quase 20 anos e no Jornal de Londrina por outros 10 anos, locais onde atuou como repórter, redatora e editora nas áreas de Economia, Política e Agronegócio, entre outras. Em 2019, fundou seu próprio jornal, O LONDRINE̅NSE, e se tornou entrevistadora do O LONDRINE̅NSE POD.

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Respostas de 4

  1. Telma, quanto à empresa Ativa, salvo engano trata-se da empresa Ativa Atacado, sediada em Londria, com atuação muito conhecida em várias áreas, inclusive de instalações de Natal, tendo realizado serviços como da árvore do Lago durante vários anos (quando foi da Administração).
    Faço esclarecimento porque senti uma dúvida sobre a própria existência da empresa, mas isso é muito facilmente verificável.

  2. Quanto à configuração do Papai Noel, a responsabilidade cabe à Londrina Iluminação, empresa municipal que elaborou o projeto licitado e contratou a terceirizada.

  3. Por fim, não vou me pronunciar sobre a estética do Papai Noel porque me sinto em completo conflito de intereses, tendo participado por tantos anos do projeto da Árvore com a passarela.

    Atenciosamente

    Fábio Cavazotti

  4. De qq forma, é necessário pontuar sim o mal gosto semiótico do que se parece com algo que seria uma lembrança do velhinho propaganda da Coca.
    Para verificar e: ressarcir.

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