Por Suzi Bońfím
No domingo (17.08), depois de almoçar mais tarde e vencer a preguiça pra sair de casa para assistir a palestra de encerramento da 44ª edição da Semana Literária e Feira do Livro, no Sesc Cadeião Cultural, em Londrina, pensei: se estiver lotado, faço meia volta. Não pretendo ficar em pé para ver e ouvir o escritor Daniel Munduruku.
De fato, no hall do Café no Sesc Cadeião tinha bastante gente, quase todos os lugares estavam ocupados e já havia algumas pessoas em pé. Mas, de repente, alguém sinaliza indicando um lugar pra eu sentar e aí, consegui assistir a palestra do escritor e educador, Imaginar o Mundo, confortavelmente. Que sorte a minha.

O evento promovido pelo Sesc Paraná em 27 cidades do estado, entre os dias 13 e 17 de agosto, permitiu que milhares de pessoas entrassem em contato com escritores, atores e editores brasileiros. Mas, ao invés de abordar este contexto, faço um recorte específico em relação ao evento em Londrina. Uma observação sobre o que me deixou decepcionada com a organização. E como bem disse o escritor paranaense Miguel Sanches Neto,no Bate-papo de sábado à tarde: a gente escreve quando tem algo nos “incomodando”.
Na abertura da semana, na quarta-feira (13), de acordo com o site do Sesc PR, “mais de 400 pessoas disputaram um lugar para assistir a palestra do escritor baiano Itamar Vieira Júnior”, autor de Torto Arado, sucesso mundial traduzido para mais de 20 idiomas. Literalmente, o espaço era pequeno para a grandiosidade de Itamar.

Não sei se haviam 400 pessoas, ao mesmo tempo, ao longo de toda a palestra, mas com certeza, mais da metade do público assistiu em pé ou sentado em almofadas no chão. É estranho que o local escolhido tenha sido o do Café – que funcionou normalmente, atendendo os clientes, enquanto o escritor falava.


(foto: Suzi Bońfím)

As pessoas se espremeram na entrada, nas laterais da sala e no mezanino onde as editoras vendiam livros. Não estava nada confortável, mas ninguém arredou o pé diante do carisma e genialidade do escritor. Outras pessoas também questionaram porque a palestra não foi realizada em um espaço maior, do próprio Sesc, dando a oportunidade para que um número ainda mais expressivo de leitores conhecessem a obra de uma das grandes estrelas da literatura contemporânea brasileira.
No sábado (16), o Bate-papo, Margens e Bordas da Memória, com Jeferson Tenório e Miguel Sanches Neto, com a mediação do escritor Renato Forin Jr, a cena se repetiu. Poucas pessoas sentadas, muita gente em pé, algumas sentadas no chão tanto embaixo quanto em cima, no mezanino. O Café servindo a clientela e ainda dava pra se ouvir o barulho das máquinas enquanto os escritores Jeferson e Miguel discorriam sobre suas obras e o poder da escrita.

A divulgação do evento deixou explícito que “toda a programação era gratuita e as atividades sujeitas à lotação do espaço”. Portanto, não há nada de novo no fato de muita gente ter perdido a oportunidade porque o Sesc Cadeião não comportava todos os que queriam participar desta programação.
A Semana Literária e Feira do Livro é considerada o maior evento do gênero realizado de forma simultânea no Brasil e que este ano fez uma homenagem ao escritor curitibano, Dalton Trevisan. A contribuição desta iniciativa para a literatura brasileira é inegável. Só nesta edição, de acordo com a instituição, foram realizadas 600 atividades, entre mesas-redondas, lançamentos de livros, performances, oficinas, exibição de filmes, espetáculos musicais, exposições, saraus literários, sessões de autógrafos, contação de histórias e walking tour pela cidade daltoniana.
Nem todas as atrações da Semana Literária, que contou com mais de 30 escritores e artistas no Estado, tiveram lotação esgotada e isso talvez justifique o fato do Sesc Cadeião, em Londrina, não realizar parte da programação em outro local. Mas, a cidade que já foi um dos cenários culturais mais efervescentes do país, pode dar mais atenção ao que parece um simples detalhe, ampliar a divulgação e os espaços físicos.
Teatro Municipal de Londrina, obras paralisadas desde 2014

Assim, como não citar as obras do Teatro Municipal de Londrina paralisadas desde 2014? Há 11 anos, o esqueleto do teatro está inerte na zona leste da cidade, não muito distante do Sesc Cadeião. Se estivesse pronto, espaço para arte e cultura não seria um problema na cidade.
A proposta finalista no Concurso Nacional de Projeto Arquitetônico, em 2007, tem uma área de 21,2 mil metros quadrados, com três teatros, sendo um com lotação de cerca de 1200 pessoas para concertos e óperas, outro para 500 pessoas de múltiplo uso e um Black Box para experiências teatrais. Na época, o investimento estimado era de R$ 80 milhões, mas somente 15% do projeto foi executado e cerca de R$ 8,5 milhões aplicados.
É um contrassenso no cenário cultural londrinense que merece mais cuidado, mais respeito com o dinheiro público, com a classe de produtores e artistas, com a população. Até quando vamos assistir a este triste espetáculo do descaso e ineficiência administrativa?
Oportunidade ímpar de contato com os escritores

Por outro lado, o contato com os escritores foi uma experiência e tanto. O carisma, a genialidade e a simplicidade de Itamar Vieira Júnior, por exemplo, cativaram o público. Como um bom baiano, tranquilo e de forma didática, ele respondeu a quase todos os questionamentos que eu tinha sobre Torto Arado.
Fiquei impressionada ao saber que a narrativa envolvente de uma história construída a partir da vivência de Itamar como geógrafo nos assentamentos do Incra, no Maranhão, começou a ser elaborada quando ele era adolescente.
“A história foi se inscrevendo em mim”, lembrou o escritor, com base na observação, memória e imaginação. O terceiro livro da trilogia que já conta com o “Salvar o Fogo” (prêmio Jabuti 2024) será lançado em breve.

(foto: Suzi Bońfím)
Já o escritor Daniel Munduruku, com 65 livros publicados voltados principalmente para o público infantojuvenil, destacou que o povo indígena só passou a ser considerado brasileiro a partir da Constituição de 1988, corrigindo uma visão distorcida que vigorou por 525 anos.
“São 305 formas de ser brasileiro. Estamos, há 37 anos, construindo um novo olhar sobre quem somos”. Missão que ele cumpre com maestria.
Estas e outras tantas atrações que passaram pela Semana Literária deram a dimensão da qualidade da cultura brasileira e a importância do encontro entre atores e público. Nos resta cobrar a conclusão do que pode impulsionar ainda mais a produção cultural londrinense.
Foto da capa, mezanino e corredor: Ana Henriques
Suzi Bońfím

Jornalista, formada na UEL, por quase 30 anos morou em Cuiabá -MT. De volta a Londrina-PR, vive a fase R de reencontros e renovação, respirando novos ares. Atua em assessoria de imprensa, rádio e tv. É sócia do O Londrinēnse e entrevistadora do O Londrinēnse POD. Instagram @suzi.bonfim
Leia mais colunas Na minha opinião…
(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente, a opinião do O LONDRINE̅NSE

Respostas de 2
A semana Literária do Sesc é, sem dúvida, um dos momentos mais esperados da agenda cultural de Londrina e atrai muita gente. A programação é sempre muito boa. Infelizmente, o espaço do Sesc Cadeião é pequeno para abrigar a grandiosidade do evento e traz muito desconforto para quem vai prestigiar a programação. Mesmo porque é preciso chegar com bastante antecedência para garantir um lugar. Mas parabéns a todos os envolvidos pela qualidade dos debates.
Boa reflexão. Precisamos de espaços modernos e adaptáveis.