Existe relação entre vinho e teatro?

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Por Edmilson Palermo Soares

Nesta sexta, dia 27 de março, é comemorado o Dia Mundial do Teatro. Mas, por que estou falando de teatro por aqui? Será que existe alguma relação entre o teatro e o vinho?

Sim!

O teatro, como o conhecemos no Ocidente, surgiu na Grécia Antiga, por volta do século VI a.C., em Atenas. Sua origem é profundamente ligada à religião e aos rituais de celebração.

Nesta época, no final do mês de março, eram celebradas as Dionisíacas (festas em homenagem ao Deus Dionísio, que seria o Deus Baco para os Romanos).

Esta época era o final das colheitas, principalmente de uvas, então a homenagem era em torno da fertilidade e do êxtase.

Nessas celebrações, grupos de homens chamados “coro” cantavam e dançavam os ditirambos (hinos religiosos). Usavam máscaras e peles de bode (animal sagrado de Dionísio).

Nesta sexta (27), comemoramos o Dia Mundial do Teatro. E você sabia que o teatro tem uma forte relação com o vinho?
Fotos: Freepik

O grande salto ocorreu quando um membro do coro, chamado Téspis, decidiu se destacar do grupo. Em vez de apenas cantar sobre o deus, ele colocou uma máscara e disse: “Eu sou Dionísio”.

Ao criar esse diálogo entre o indivíduo e o coro, Téspis inventou o protagonista e o conceito de atuação (fingir ser outra pessoa). Até hoje os atores são chamados de “tespianos”.

Inicialmente era uma festa rural, mas, por volta de 530 a.C, o tirano Pisístrato cria as “Grandes Diosisíacas”.

Era o festival onde o vinho, a política e a arte se fundiam em um espetáculo de cinco dias que parava a cidade.

O festival era financiado pelo Estado e pelos cidadãos ricos (liturgias). Até os prisioneiros eram libertados temporariamente para assistir às peças e beber. O vinho era o “grande nivelador social“.

Como era este festival teatral:

  • Pompe (Procissão): O festival começava com o transporte da estátua de Dionísio. O povo carregava falos gigantes (símbolos de fertilidade) e, claro, muito vinho era distribuído. Era uma explosão de liberdade e alegria.
  • Concursos de Ditirambos: Grupos corais de cada tribo de Atenas competiam cantando hinos a Dionísio. Era a base musical do que viria a ser o teatro.
  • Agon (A Competição): O momento mais esperado. Três dramaturgos eram selecionados para apresentar suas obras. Cada um apresentava uma trilogia de tragédias e uma peça satírica (para aliviar a tensão com humor e vinho).
  • Julgamento: Jurados escolhidos por sorteio decidiam o vencedor. O prêmio não era apenas dinheiro, mas uma coroa de hera e o prestígio eterno.

Qual era ideia dos conceitos das obras:

  • Tragédia: Deriva de tragos (bode) e oidé (canção) — a “canção do bode”. Tratava de temas nobres, destino e sofrimento dos deuses e heróis, buscando a catarse do público.
  • Comédia: Focada no cotidiano, na sátira política e nos costumes, com o objetivo de fazer rir e criticar a sociedade.

O objetivo das peças era a purificação da alma através da emoção (cartase). Na Grécia, acreditava-se que o vinho ajudava a atingir esse estado de liberação espiritual.

Após as apresentações, os cidadãos se reuniam em tavernas para discutir as peças e os vinhos servidos, criando o que hoje chamamos de crítica de arte e enologia.

Os gregos construíram teatros ao ar livre, aproveitando a acústica natural das encostas das colinas. A estrutura básica consistia em:

  • Orquestra: Onde o coro ficava.
  • Skene: O cenário ou “bastidor” (origem da palavra cena).
  • Theatron: Onde o público se sentava (que significa “lugar de onde se vê”).

Como o teatro era uma atividade cívica e religiosa, o uso de máscaras era essencial. Elas permitiam que um único ator fizesse vários personagens (inclusive femininos, já que mulheres não podiam atuar na época) e ajudavam a projetar a voz e a expressão para as últimas fileiras.

A peça “As Bacantes“, de Eurípides é a obra-prima que une o teatro à sua origem sagrada: o vinho e o deus Dionísio.

Nesta peça clássica, Dionísio retorna à sua cidade natal, Tebas, para provar sua divindade. Aqueles que o aceitam e bebem seu vinho experimentam a libertação e o êxtase; aqueles que o rejeitam enfrentam a loucura. É a representação máxima do vinho como uma força que quebra as barreiras sociais e liberta o espírito humano.

Assim como uma boa peça nos transporta para outras realidades, uma taça de vinho nos convida a viver o momento presente com intensidade. Cada gole conta uma história e cada brinde é um ato de celebração à vida.

Que tal celebrar essa conexão histórica hoje? Um brinde à arte e ao néctar que a inspirou!

Tears!

Edmilson Palermo Soares

Enófilo, sócio proprietário da Confraria da Taverna, loja de vinhos e espumantes que traz novas experiências no mundo do vinho, estudioso e entusiasta, com conhecimento prático provando vinhos de mais de 20 países e diversas uvas desconhecidas do público em geral.

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