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Não estão acostumados, mas vão precisar ficar…

Os crimes cometidos contra a população negra no Brasil são divulgados a todo o momento. Nesta semana, mais uma mulher negra foi impedida de entrar em uma loja

Mais fácil julgar pelo tom de pele e rotular como ladrão, pedinte e capaz de oferecer perigo. Mais fácil constranger do que dignificar. Mais fácil enxotar do que oferecer respeito. Mais fácil acreditar que todo preto é lascado – a vontade, aqui, era de falar um palavrão – do que ele pode ter dinheiro para comprar itens de valor agregado, como roupas de marcas conhecidas e prestigiadas, adquirir e ostentar joias, comprar carros, fazer viagens.

Nesta semana, o racismo colocou suas manguinhas de fora com uma mulher negra. Ela foi impedida de entrar em uma loja de um shopping de Fortaleza. Após a repercussão negativa, o comércio em questão alegou que a delegada estava com um sorvete no momento em que chegou.

 Oi? Delegada? Sim, não esperavam que a mulher negra impedida de entrar em uma loja ocupasse um cargo de destaque dentro da polícia.

Na verdade, o racismo nunca espera um negro bem posicionado profissionalmente, por isso tratam com desdém e falta de respeito. Mais uma vez, uma mulher negra teve sua dignidade ferida pelas marcas de um racismo entranhado em nosso meio.

Mas, pelo menos desta vez, caíram do cavalo, pois a delegada abriu um inquérito para apurar os fatos. E o mais satisfatório: encaminhou equipes ao local para apreensão de equipamentos de vídeo, com o objetivo de aclarar as investigações. O que provocou uma rápida ação dos advogados da loja para ouvir “o que foi que aconteceu”.

Não estão acostumados, mas vão precisar ficar… a ver negros bem-sucedidos, porque a sociedade está se movimentando, ainda que vagarosamente. Qual é o estranhamento de ver uma mulher negra comprando em uma loja tida como de prestígio? Se ela estivesse chegando para trabalhar nos serviços gerais, por exemplo, era o papel que lhe cabia? Não estou, pelo amor de Deus, menosprezando quem atua com serviços de limpeza. Mas é esse lugar, corriqueiramente, que nos dão.

A ABORDAGEM DO RACISMO É SUTIL

Não é fácil passar por uma situação de racismo como essa. É preciso buscar forças para cobrar providências. É de embrulhar o estômago saber que situações assim ocorrem todos os dias e que a sensação de impunidade é a responsável pela continuidade de tais atos.

Para uma mulher negra, basta observar olhares insistentes para saber que estão colocando nossa índole em questionamento. Ou, até mesmo, quando em lojas, o segurança persiste em passar por você inúmeras vezes. Não é por conta do exercício de sua profissão, mas sim pelo simples fato de achar que todo negro é um criminoso em potencial.

A violência cometida contra a vida de Ana Paula Barroso, ainda que ocorra punição, ficará marcada em sua existência para sempre. Ela precisará ressignificar.

É cansativo, doloroso, danoso lutar para ter seus direitos preservados e sua dignidade humana preservada. Façamos uma reflexão: uma mulher branca, com um sorvete, seria impedida de entrar na loja em questão?

Confesso que me sinto em um looping, muitas vezes, quando o assunto é a insistência do racismo e seus ataques às mulheres negras, principalmente. Mas o que acalenta minhas forças é saber que existem muitas vozes se levantando e uma rede de apoio que cresce a cada dia.

É como foi dito pelo título da coluna: Não estão acostumados, mas vão precisar ficar…

Que tenhamos e sejamos resistência. Axé!

Quem é Viviane Alexandrino

Sou a Viviane, tenho 36 anos e atuo como professora de Língua Portuguesa em colégios da cidade de Londrina. Além da formação em Letras Português, pela UEL, e mestranda em Estudos Literários pela referida instituição, sou formada também em Jornalismo, profissão essa que exerci durante 10 anos antes de me apaixonar pela educação.

Foto: Divulgação/Polícia Civil do Ceará

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