Falar a partir de nossas vivências é necessário. Afinal, a trajetória nos revelou, até aqui, que é preciso persistência, para que a derrota não nos atinja. Para iniciar o texto da coluna desta semana, quero compartilhar a estrofe da música Deus É Uma Mulher Preta.
“Deus é uma mulher preta
E por natureza sei que vou sobreviver
Deus é uma mulher preta
Bença minha mãe para lutar e escreviver”
Tem sido assim para as mulheres negras: Resistir para existir. Lutar e sobreviver. Teimar e manter-se firme! Acreditar. Aquilombar. Reconectar-se com a ancestralidade e esperançar. “Combinar de não morrer”. Neste Dia das Mães, quero trazer algumas reflexões sobre a mulher negra e, sobretudo, mãe no Brasil.
Sou filha de uma mulher negra. Minha mãe trabalhava com faxinas e serviços gerais, era analfabeta, filha adotiva de um casal que nunca lhe deu amor, casou-se com um homem machista e viciado em bebida. Teve três filhas. Educou-as severamente, mas ignorou que além do prato de comida que precisa providenciar para suas meninas, esqueceu-se que o amor precisava fazer morada.
A vida não teve um dó dela: a solavancou de todas as maneiras. Aqui, as marcas de uma sociedade estruturalmente racista apareceram: não queriam lhe dar emprego, pois quem cuidaria de suas filhas? Se levasse as meninas para o trabalho, elas precisavam ficar quietinhas, enquanto a limpeza era feita. Na hora de comer, precisava esperar que todos comessem, rezando para que algo lhes sobrasse. Viveu das sobras a maior parte de sua vida: sobras de amor, de caridade, de esperança. Precisava nos “ensinar” sempre que nossas peraltices apareciam, para que não virássemos vagabundas, mães com filhos “sem pai” ou até drogadas ou criminosas. Sucumbiu quando percebeu que suas ações eram limitadas. Limitadíssimas. Quase inexistentes. E num súbito de desespero, foi embora. Nunca mais voltou. Nunca mais olhou para trás.
Deixou as três filhas à mercê de todas as sortes de bênçãos. Deixou-nos para que buscássemos as respostas, afinal, “por natureza sabia que íamos sobreviver”.
Falar de minha mãe é uma dor que não passa, nunca. Pensar que ela e tantas outras mulheres negras chefiam suas casas, em uma forma de Quarto de Despejo. Aqui, faço menção à escritora Carolina Maria de Jesus, mulher, mãe, negra. Carolina nos mostrou em seus escritos como é difícil criar filhos em um Brasil “que está retornando a primitividade”, e isso foi mencionado na década de 60. Mais atual impossível! Pensar que outras mulheres negras sobrevivem as suas agonias e, assim como minha mãe, para fazer o que dá, porque o Estado não nos dá o mínimo para nossa existência. E os clichês dessa narrativa vão se perpetuando ano após ano, década após década, chacina após chacina.
Os clichês se repetem no Brasil de “todos”. Minha mãe era analfabeta. O analfabetismo entre os negros é quase três vezes maior do que entre os brancos, apontou a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio, no ano de 2019. Minha mãe era funcionária da limpeza. No ano de 2018, mais de seis milhões de pessoas tinham como ocupação o serviço doméstico remunerado. Ao todo, 92% desses prestadores de serviço eram mulheres, um total de 5,7 milhões, das quais 3,9 milhões eram mulheres negras. Uma clara extensão da senzala, pois quando ocorreu a assinatura da Lei Áurea no Brasil, ninguém se preocupou na inclusão do negro na sociedade, acharam que “somente” a liberdade daria conta do que precisava ser pensado e, principalmente, feito. As marcas disso, vemos até hoje: pouca inclusão, pouca oportunidade, pouca dignidade, pouca reflexão da sociedade, muita exclusão, muitos tiros em nossos corpos e muita falácia.
E a desigualdade racial também se mostra presente quando o assunto envolve as mães solo. Em pesquisa divulgada, ano passado, pelo IBGE, foi constatado aproximadamente 11,4% das mães no Brasil são mães solo. Desse total, 7,5% é composto por mulheres negras. A partir disso, podemos fazer a triste constatação: a mulher negra é o destaque da pirâmide da exclusão social.
Voltando para minha mãe, nesse Dia das Mães, penso que ela ficaria contente ao perceber que fui a primeira pessoa de nossa família a concluir um curso superior. Algo lhe foi negado, a fez acreditar, paradoxalmente, que seria o motivo para levar suas filhas para frente. O roteiro que o Brasil tinha deixado para mim, eu não aceitei. Nesse filme de terror com o nome de desigualdade social, ainda há nuances de esperança. Vamos lutar e sobreviver! “Minha mãe me abençoe e dê forças pra eu prosseguir”.
Termino com um poema lindíssimo sobre a força da mulher e mãe negra. Que não nos falte fôlego de vida.
Às mães que choram
Foi no Valongo
Que um grito ecoou
Adeus, Mãe
A África chorou
Pelo machado de guerra
Vem a esperança da paz
O brado é inspiração
Pra luta que hoje se faz
Quando o trovão ressoar
E a balança equilibrar
Nenhuma mãe mais irá
Com o seu pranto
O chão lavar.
Zilá Lima
Quem é Viviane Alexandrino

Sou a Viviane, tenho 36 anos e atuo como professora de Língua Portuguesa em colégios da cidade de Londrina. Além da formação em Letras Português, pela UEL, e mestranda em Estudos Literários pela referida instituição, sou formada também em Jornalismo, profissão essa que exerci durante 10 anos antes de me apaixonar pela educação.
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