Eu quase acreditei que podia sair sem sutiã!

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Por Ana Paula Barcellos

Dia desses rolou mais uma onda de fotos lindas no Instagram: Sydney Sweeney de vestido prata quase etéreo, seios marcando livres sem sutiã; Bruna Marquezine parecendo que acabou de sair de um editorial da Vogue com os faróis lindamente acesos, um monte de meninas de 23 anos com blusinhas de alcinha e a legenda “livre”. Olhei, dei like, suspirei e pensei: gente, que vontade de acreditar que isso é pra todo mundo.

Aí eu me lembrei que meu armário tem uns 20 sutiãs, todos com funções específicas: o que some embaixo daquele vestido, o preto rendado pra usar numa noite boa, o top esportivo que segura tudo quando vou pra academia, o que eu uso nos dias de massagem… Enfim, uma coleção digna de museu.

Porque, vamos combinar com carinho: o “no bra” é lindo. Funciona que é uma beleza… em alguns corpos.
Tipo aqueles seios que parecem ter sido desenhados por um estagiário do Paraíso: pequenos, empinadinhos, que desafiam a gravidade como se tivessem vergonha de cair. Aí o mamilo marca de leve e vira estética, vira atitude, vira “olha como eu sou livre e cool”.

Agora experimenta fazer isso com um peito G que já amamentou uma brasileira e ainda carrega as medalhas (leia-se: estrias) no peito. De repente o mesmo mamilo que era “empoderamento” vira “nossa, coloca um sutiã, pelo amor de Deus”. É tipo mágica ao contrário: o que era liberdade vira desleixo em 0,2 segundo.

Abandonar o sutiã

Eu rio porque é engraçado (e um pouquinho triste): na França, 70% das mulheres dizem que abandonaram o sutiã. Eu suspeito que 68% delas têm seios que cabem na palma da mão e nunca conheceram uma bomba extratora de leite na vida. As outras 2% provavelmente são eu e você, mentindo na pesquisa pra parecer descoladas.

Ver uma atriz sem sutiã faz a gente ter vontade de acreditar que isso é pra todo mundo. Mas não é. Ver seios de tamanho G ou GG balançando livres ainda incomoda muito o observador
Foto: freepik

Eu adoro ver mulher se sentindo bem sem sutiã. Só queria que essa liberdade não viesse com asterisco:

*Válido apenas para seios que parecem de 19 anos mesmo depois dos 40.

*Se cair mais que 3 centímetros, favor recolher imediatamente.

Eu ainda sonho com o dia em que vou ao mercado de regatão, peito balançando tipo dois pêndulos felizes, e ninguém vai achar que esqueci de me vestir – ou que quero me sexualizar! Enquanto isso não chega, vou continuar com minha coleção de sutiãs e torcendo pelas meninas que podem. E, quem sabe, num dia de coragem (ou de preguiça extrema), eu arrisco um no bra… numa blusa bem fechada, lugar sem ar condicionado ligado, né? Segurança em primeiro lugar.

No fim das contas, liberdade mesmo é poder escolher sem ter o corpo avaliado, marcado, sexualizado ou abusado – como acontece com os homens. E sim, eu sei, o corpo perfeito pra ir sem sutiã é o clichê, é todo corpo. Mas toda mulher também é uma vítima em potencial. Então, hoje não.

Foto principal: Pixabay

Ana Paula Barcellos

Viciada em botas, sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências. Tem foto da Suzy Menkes na estante e escreve essa coluna usando pijama velho, deitada no sofá enquanto toma café com chocolate. Me siga no Instagram @experienciasdecabide @yopaulab

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