Cilada fashion: por que as pessoas pagam tanto por roupas feias de grifes famosas?

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Tendência ou migué, fashionismo ou cilada? Essa semana, a peça tendência que deixou muita gente intrigada – até mesmo revoltada – e se fazendo essas duas perguntas, foi o moletom destroyed da Balenciaga – uma peça azul com capuz e bordado, da nova coleção (praticamente esgotada) e que parece ter sido mastigada por um cão.

O moletom da discórdia: apesar da polêmica nas redes, a peça é sucesso absoluto de vendas e está esgotada. Foto: Farfetch/Reprodução

A blusa foi motivo de piada e indignação nas redes sociais: centenas de usuários questionaram o fato de um artigo desses, que mais parece com defeito de fabricação, custar tão caro: é só comprar um suéter de 20 contos no brechó e colocar no liquidificador que fica igualzinho, ironizou uma usuária do Facebook. Em um grupo da mesma rede, uma postagem mostrava o moletom com uma legenda que simulava um diálogo entre os responsáveis pela confecção da peça: – A produção foi boa hoje, mas a máquina engasgou e estragou a última peça, vamos ter que jogar fora. – Que jogar fora, que nada, chama lá o pessoal do marketing!

Foto: Facebook/Reprodução

Ri alto com alguns dos comentários, que achei muito pertinentes. Um outro seguidor disse acreditar que a Balenciaga só pode estar fazendo um “estudo social” para testar o alcance do efeito manada entre os fashionistas de plantão. Eu digo que eles não precisam mais fazer testes, eles sabem que vão vender qualquer coisa que anunciarem. Eu, se tivesse uma peça de roupa dessa no armário, jogaria fora.

Conjunto de rabicós (scrunchies) Fendi sai por R$ 1.650. Foto: Farfetch/Reprodução

Ah, mas não se trata de uma peça usada ou velha, apenas com uma estética desleixada, urbana e contemporânea!, podem defender alguns. Eu digo: aham, senta lá no cantinho! O moletom em questão custa quase R$ 18.000! Mas claro, você não paga apenas pela peça de roupa, você paga pela etiqueta, pelo status!, dirão outros. Eu digo: que delírio! Não tem nada na peça, absolutamente nada, que justifique o superfaturamento.

Uma coisa é reconhecer o trabalho dos designers de moda, apreciar peças de alta costura com olhos atentos: valorizar o acabamento e modelagem impecáveis, horas e horas de trabalho artesanal, bordados manuais; analisar os pontos costurados à mão e que parecem feitos à máquina, um trabalho que tem uma assinatura estética e que é dificílimo de ser reproduzido… isso deve ser aplaudido. Eu jamais pagaria milhares de reais em uma peça de roupa, em uma bolsa ou calçado – ainda que eu tivesse dinheiro sobrando. Vai contra minha filosofia de vida. Mas reconheço que, nesses casos, o item vale o que custa. Um moletom grifado, rasgado, não vale o mesmo que um carro popular usado. Óbvio, esse não é o único caso. Uma olhada rápida no site da Farfetch comprova que esse tipo de delírio não tem limites.

O chaveiro Thomas Bear, da Burberry, pode ser seu por R$ 2.450. Foto: Farfetch/Reprodução

Claro, se vende é porque tem quem compre. Como disse o usuário @filipeduarte_, no Twitter, a Balenciaga “é” o surto coletivo dos ricos. E ter é ser, é pertencer. Eu, usando meu look pandêmico desleixado, encerro: o golpe tá aí, cai quem quer.

Ana Paula Barcellos

Escritora, designer de joias artesanais, marketeira e pesquisadora de tendências. Trabalha com as marcas Pinacola e Ana Diana.

Foto: Camisa da coleção 2018 da Balenciaga, campeã de esquisitices fashion/ Divulgação

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