Nada no vestuário deveria ser encarado pelo prisma do gênero. Muito menos a bolsa, que obviamente não é coisa só de mulher!
Por Ana Paula Barcellos
A bolsa é, talvez, o acessório mais antigo e democrático da humanidade. Muito antes de se transformar em peça de desejo ou símbolo de status, ela nasceu da necessidade mais básica: carregar o que as mãos não conseguiam segurar. Moedas, documentos, chaves, ferramentas, amuletos, segredos. Homens e mulheres, sem distinção, usavam pequenas bolsas presas à cintura ou ao corpo na Idade Média, na Renascença, durante longas viagens e nos movimentados mercados da antiguidade. Quem precisava carregar, simplesmente carregava. Não havia julgamento, não havia rótulo. A funcionalidade falava mais alto que qualquer convenção social.
Tudo começou a mudar com a Revolução Industrial, no final do século XVIII e ao longo do XIX. As roupas masculinas, cada vez mais práticas e adaptadas ao mundo do trabalho fabril e dos escritórios, ganharam bolsos embutidos — discretos, racionais e extremamente úteis.
Já as roupas femininas, ainda presas aos espartilhos, às saias volumosas e à ideia romântica de delicadeza e fragilidade, foram deliberadamente deixadas sem bolsos. A bolsa deixou de ser um objeto neutro e passou a ser o “complemento” indispensável para a mulher. Nasceu aí, mais por uma estrutura social patriarcal do que por qualquer razão estética, a forte associação da bolsa ao universo feminino.

A bolsa reconquista seu caráter transgressor
No século XX, porém, a bolsa começou a reconquistar seu caráter transgressor. Artistas, músicos, poetas, rebeldes e dândis urbanos passaram a carregá-la sem pedir licença: maletas de couro, pastas estruturadas, sacolas largas e clutches elegantes. Figuras icônicas da contracultura e da moda quebraram barreiras visíveis e invisíveis. Hoje, no street style das grandes cidades e nas passarelas internacionais, a diversidade é evidente: vemos crossbody neon e coloridos em looks masculinos, totes oversized equilibrando silhuetas fortes, mochilas técnicas convivendo harmoniosamente com produções femininas e clutches minimalistas aparecendo em qualquer tipo de styling. O que realmente muda não é o gênero de quem usa a bolsa, mas o contexto e a forma como ela é incorporada ao visual.
É legal olharmos com mais honestidade e profundidade para a moda como um todo. Quase tudo que hoje classificamos rapidamente como “coisa de homem” ou “coisa de mulher” é fruto de convenções sociais construídas ao longo do tempo, ciclos econômicos, estratégias de marketing e padrões impostos pela indústria. Raramente reflete uma verdade absoluta sobre o corpo humano ou sobre a identidade.
Roupas e acessórios não nascem com gênero. Nós que atribuímos.
E se, finalmente, soltássemos essa amarra cultural?

Talvez descobríssemos que a verdadeira liberdade de vestir não está em escolher rigidamente entre o masculino e o feminino, mas em selecionar, com consciência e prazer, aquilo que faz sentido para o nosso corpo, para o nosso dia a dia e para a nossa própria história — sem precisar pedir permissão a etiquetas invisíveis ou a julgamentos alheios.
Porque, no fim das contas, a moda mais interessante, criativa e poderosa nunca foi sobre seguir regras de gênero. Foi sempre sobre ter a coragem de criar as próprias regras. Nem que seja em carregar uma bolsa.
Ana Paula Barcellos

Viciada em botas, sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências. Tem foto da Suzy Menkes na estante e escreve essa coluna usando pijama velho, deitada no sofá enquanto toma café com chocolate.
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