Por Ana Paula Barcellos
Billie Eilish é uma cantora bombada, bem do momento. Quem acompanha novidades musicais sabe quem é. Eu, que já trabalhei com música, que já escrevi em sites especializados sobre o assunto, só fui saber realmente quem ela é depois da moça cair no gosto e nas graças da Olívia, minha filha de quase 11 anos muito estilosa.
E a cantora também tem um estilo incrível, um estilo que flui bastante: ela pode estar com um vestido de festa, fazendo a vibe mais delicada, mas também pode estar usando roupas largas; pode usar camisa estruturada com gravata curta e cabelo loiro ou usar uma roupa considerada fofa e pintar o cabelo de preto e verde. É, definitivamente, o estilo “eu visto o que me dá vontade hoje”.
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Uma moça de apenas 21 que se veste de forma tão segura, confiante, e que aparenta estar muito confortável nesse momento com seu visual, deveria ser celebrada, muito celebrada. Mas não: justamente por seu estilo, por exercer sua autonomia, ela é cada vez mais criticada, e de forma muito dura, nas redes sociais.
Por que ainda incomoda tanto ver uma mulher se vestindo sem pensar em gênero? Como, em 2023, tem gente que continua classificando roupas como “masculinas” ou “femininas”, dividindo de forma tão arbitrária as seções das lojas. E pior: parece que agora essa classificação fica cada vez mais direcionada às mulheres.


Porque homem usando saia e com unha pintada? Que lindo, que revolucionário, palmas. Mulher usando regata de basquete e bermuda de skate? Com boné ainda por cima? Olhares de reprovação. O corpo marcado e vigiado continua sendo o corpo da mulher, nada de novo sob o sol. A gente ainda não consegue escapar dessas armadilhas.
Contei aqui esses dias a saga para conseguir calças novas para a Olívia. Ela queria cargo, queria joger, queria rocker. Em qual seção era mais fácil encontrar o modelo? Na masculina. Olhares espantados? Recebemos vários em nossa direção. Minha resposta, sempre a mesma: ela tem estilo próprio, não gosta de modinha e não existe roupa de menino ou menino, moça(o)! Para minha alegria, Olívia é muito segura de seu estilo, de seus desejos, de suas escolhas. Sempre foi, aliás. Com quase dois anos de idade, pediu pra trocar a blusa pela primeira vez: não queria a de nuvem, queria a de bichinhos!



E ela decidiu cortar os cabelos como a Billie Eilish usava uns tempos atrás. Está feliz de ter encontrado um corte que gosta. E estou feliz porque ela diz que o guarda-roupa está cada vez mais com a cara dela.
Quem não consegue ficar em paz é a própria Billie. A internet não sossega, as pessoas metralham. Foi colocar roupas mais femininas e usar maquiagem que já caíram matando outra vez, acusaram-na de não ser mais autêntica. Ela não está numa caixinha, mas as pessoas querem que ela esteja. Que todas as mulheres estejam.

Ana Paula Barcellos
Viciada em botas, sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências. Tem foto da Suzy Menkes na estante e escreve essa coluna usando pijama velho, deitada no sofá enquanto toma café com chocolate. Me siga no Instagram @yo.anap e @experienciasdecabide
Foto principal: Pinterest
