A Bolsa cai, mas o Brasil continua de pé: a economia é maior que a turbulência eleitoral

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Apesar da forte reação dos mercados ao resultado das eleições, os indicadores de emprego, renda, crescimento e comércio exterior revelam uma economia brasileira mais resistente do que sugere o nervosismo financeiro

Por Rogério Buchala

A economia de um país não se transforma da noite para o dia. Uma eleição pode alterar expectativas, provocar oscilações no câmbio, derrubar ações e produzir inquietação entre investidores. Entretanto, não faz desaparecer, de uma hora para outra, a capacidade produtiva das empresas, os empregos existentes, a renda das famílias ou os resultados de um setor exportador competitivo. É justamente essa distinção que precisamos compreender diante dos acontecimentos recentes.

Nesta segunda-feira (26), o mercado financeiro brasileiro experimentou uma de suas sessões mais turbulentas dos últimos anos. O Ibovespa encerrou o pregão com queda de 13,88%, enquanto o dólar registrou forte valorização, em reação ao resultado da eleição presidencial. Os números impressionam e naturalmente despertam preocupação. Mas seria equivocado confundir a intensidade dessa reação com um diagnóstico definitivo sobre a situação econômica nacional.

Indicadores da economia real revelam um cenário mais favorável

Comecemos pelo emprego, talvez a variável econômica de maior significado social. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de desemprego atingiu 5,3% no trimestre encerrado em agosto de 2026. O país contabilizava aproximadamente 103,5 milhões de pessoas ocupadas. Ainda mais importante, o rendimento médio real dos trabalhadores apresentou crescimento de 3,7% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Não estamos falando simplesmente de números estatísticos. Estamos falando de brasileiros trabalhando, recebendo salários e ampliando sua capacidade de consumo. Quando o rendimento cresce acima da inflação, há um ganho efetivo de poder aquisitivo. Isso movimenta o comércio, fortalece a prestação de serviços e contribui para a sustentação da atividade econômica.

O Produto Interno Bruto também continua crescendo. No segundo trimestre de 2026, a economia brasileira avançou 0,5% em relação ao trimestre anterior e 2% na comparação com igual período de 2025. Embora exista desaceleração, estamos diante de crescimento positivo, e não de uma economia em recessão. Essa diferença é fundamental para compreender a conjuntura sem exageros.

Outro destaque está no comércio exterior. Entre janeiro e setembro de 2026, as exportações brasileiras alcançaram aproximadamente US$ 284,65 bilhões, crescimento de 10,4% em relação ao mesmo período de 2025. A balança comercial acumulou superávit de US$ 62,4 bilhões, resultado 34,8% superior ao registrado um ano antes.

Esses números demonstram que o país continua produzindo, exportando e gerando receitas internacionais. O agronegócio, a indústria extrativa e a indústria de transformação contribuem para uma estrutura exportadora que mantém o Brasil integrado às principais correntes do comércio mundial.

No campo inflacionário, também é necessário evitar interpretações precipitadas. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) acumulou 4,29% nos 12 meses encerrados em setembro, enquanto o IPCA chegou a 4,58%. São taxas que exigem atenção, especialmente por seu impacto sobre o orçamento das famílias, mas que não caracterizam um processo de descontrole generalizado dos preços.

Naturalmente, seria incorreto ignorar os desafios brasileiros. A taxa básica de juros de 13,75% ao ano permanece elevada, o investimento produtivo enfrenta restrições e a trajetória da dívida pública requer responsabilidade fiscal. São dificuldades reais, que precisam ser enfrentadas independentemente das preferências políticas ou dos resultados eleitorais.

Mas reconhecer problemas não significa desconsiderar conquistas. Uma análise econômica equilibrada não pode selecionar apenas os indicadores negativos, assim como não deve ocultar fragilidades para construir uma imagem artificialmente favorável.

É nesse contexto que precisamos interpretar a queda da Bolsa.

A queda da Bolsa assusta, mas não conta toda a história da economia brasileira. Emprego, renda e exportações mostram que o país tem fundamentos para enfrentar a turbulência eleitoral
Fotos: Magnific

A queda da Bolsa

O mercado financeiro negocia expectativas sobre o futuro. Os preços das ações refletem projeções de lucros, juros, riscos e políticas econômicas. Quando ocorre um resultado eleitoral diferente daquele que parte expressiva dos investidores esperava, essas projeções são rapidamente revistas. Posições financeiras são desfeitas, recursos são realocados e os preços passam por ajustes que podem ser bastante intensos.

Isso não significa que os fundamentos econômicos tenham sofrido, no mesmo instante, uma deterioração equivalente. Significa que os investidores estão reavaliando o cenário futuro diante de novas informações.

Em períodos de elevada incerteza, também podem ocorrer movimentos excessivos de preços, conhecidos na literatura econômica como overshooting. Nessas circunstâncias, a intensidade da reação inicial pode superar aquela que posteriormente se mostrará compatível com os fundamentos econômicos.

À medida que as incertezas diminuem, os investidores passam a dispor de informações mais concretas sobre a condução da política econômica. A definição de prioridades, o compromisso com a sustentabilidade fiscal, a preservação da estabilidade monetária e a previsibilidade institucional podem contribuir para a redução dos prêmios de risco e da volatilidade.

Por isso, é razoável considerar a possibilidade de que a turbulência atual perca intensidade depois dos primeiros movimentos de ajuste. Isso não representa uma garantia de recuperação imediata das cotações anteriores, tampouco significa que os riscos desaparecerão. A estabilização dependerá das decisões econômicas efetivamente adotadas e da confiança que elas conseguirem produzir.

Existe, porém, uma constatação importante: o Brasil não amanheceu nesta segunda-feira sem suas empresas, sem sua produção agropecuária, sem seus trabalhadores ou sem sua capacidade exportadora. Tampouco desapareceram os resultados econômicos registrados nos últimos meses.

Mercado consumidor expressivo

O país continua dispondo de um mercado consumidor expressivo, uma estrutura produtiva diversificada, recursos naturais abundantes e setores internacionalmente competitivos. Esses atributos constituem parte importante de sua capacidade de enfrentar períodos de instabilidade.

Devemos, portanto, manter uma atitude de prudência, sem transformar oscilações financeiras em previsões automáticas de calamidade econômica. O desempenho do mercado de capitais é relevante e pode afetar a economia real quando a instabilidade persiste. Mas ele não é, isoladamente, a medida de toda a riqueza nacional.

O momento exige serenidade, responsabilidade e capacidade de distinguir fatos de expectativas. Os indicadores favoráveis não autorizam complacência com os problemas fiscais, assim como as quedas da Bolsa não autorizam ignorar os avanços econômicos efetivamente registrados.

O Brasil tem desafios importantes, mas também possui fundamentos que justificam uma avaliação construtiva de suas possibilidades.

Quando a poeira eleitoral baixar, será o comportamento efetivo da produção, do emprego, da renda, da inflação e das contas públicas que continuará determinando os rumos da economia. E esses indicadores mostram que o país dispõe de bases reais sobre as quais pode construir um período de maior estabilidade.

Afinal, a Bolsa pode mudar de direção em minutos. A economia de uma nação, felizmente, é muito maior do que um único dia de negociações.

Fontes dos indicadores: IBGE (Contas Nacionais, PNAD Contínua, IPCA e INPC); Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Comex Stat); Banco Central do Brasil (Copom e estatísticas fiscais); B3 (Ibovespa).

Rogério Buchala

Economista formado pela UEL, professor, mestre e doutor pela UNESP. Professor e coordenador dos Cursos de Administração e Ciências Contábeis da FAI. Instagram @rogeriobuchala

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