Por Edra Moraes
Como falávamos no último artigo, existe um chão de fábrica da cultura, e ele tem um nome: quem carrega o piano. Começo por onde sempre começo: pela experiência própria. Entrei na cultura quase sem perceber que estava fazendo isso. Era produtora no Perdidos na Noite, na TV Bandeirantes. Depois fui para uma grande agência de publicidade, na área de casting. E foi ali, nessa transição, que senti pela primeira vez algo que demoraria anos para conseguir nomear: a diferença salarial entre os dois mundos era gritante, mesmo no início de carreira, mesmo fazendo trabalhos igualmente exigentes, igualmente criativos, igualmente sérios.
A conclusão que tirei foi pragmática, como costumam ser as conclusões que a gente tira quando ainda é jovem e precisa sobreviver: fui para o marketing. Não porque não amasse a cultura. Mas porque os exemplos que via à minha volta me preocupavam. Carreiras interrompidas. Profissionais talentosos ganhando mal. Gente brilhante sobrevivendo de bico em bico, projeto em projeto, edital em edital. Não queria esse futuro.
Mas a vida tem uma ironia particular para quem tenta escapar de certos lugares.
Anos depois, diante da dificuldade de me recolocar no mercado formal, por razões que qualquer mulher em determinada fase da vida reconhecerá sem que eu precise explicar, voltei. Voltei para a produção cultural exatamente como André Gambier Campos, técnico de planejamento e pesquisa do Ipea, descreveu ao analisar os trabalhadores dos bastidores da área cultural: não como o auge de uma trajetória, mas como o lugar aonde se chega quando outras portas se fecham.
Não foi derrota. Mas também não foi escolha livre.
E foi aí que percebi: muita coisa havia mudado na cultura brasileira. A linguagem era outra. Os formatos, outros. O discurso, certamente outro, mais progressista, mais consciente, mais preocupado em parecer justo.
Mas algumas coisas permaneciam intactas, como paredes que se pintam mas não se derrubam.
O manda quem pode e obedece quem tem juízo. O lucro direcionado à elite que coordena. A remuneração vergonhosa ou simplesmente insegura, que a gente aceita quando não há alternativa real. Quando a escolha é entre isso e nada.
O que era impressão virou dado. E o dado foi desolador.
Segundo o IBGE, a cultura emprega 5,9 milhões de pessoas, representa cerca de 3% do PIB nacional e movimenta mais de R$ 910 bilhões em receita líquida. Em números macroeconômicos, o setor é robusto, diversificado, estratégico.

Mas quando se olha para dentro dele, a pergunta se impõe: quem se beneficia dessa riqueza?
Porque o trabalhador cultural médio, aquele que existe nos bastidores, é invisível e convive com salários baixos, vínculos temporários, informalidade estrutural, múltiplas jornadas, ausência de previdência, pejotização forçada e contratos confusos. Cerca de 44,6% atuam na informalidade e 43% por conta própria. E um dado que me perturbou especialmente: o trabalhador da cultura tem, em média, escolaridade superior à média nacional, 30,1% com ensino superior completo, contra 23,4% do restante da economia. Estudo, aqui, não garante estabilidade. Formação não compra segurança.
A cultura brasileira se profissionalizou na aparência. Precarizou-se na base
Durante anos nos venderam a ideia do “empreendedor criativo” como se fosse libertação. Na prática, significou transferir todos os riscos para o indivíduo, enfraquecer vínculos trabalhistas, normalizar o trabalho gratuito ou mal pago, e responsabilizar o trabalhador pela ausência de políticas públicas. Muita gente abre CNPJ não para crescer, mas simplesmente para conseguir receber. Tornam-se empresas de uma pessoa só, sem férias, sem 13º, sem rede de segurança. O que chamam de autonomia, muitas vezes, é abandono com outro nome.
A Reforma Trabalhista de 2017 prometeu resolver parte disso com o contrato intermitente. Não resolveu. A adesão no setor cultural é pequena, incapaz de reorganizar um mercado que tem problemas estruturais que nenhum instrumento jurídico isolado consegue tocar: remuneração baixa, sazonalidade extrema, excesso de microcontratações, ausência de fiscalização real. Criou-se o instrumento. Não se enfrentou a realidade econômica.
E quem está na base desse sistema? Predominantemente mulheres, trabalhadores negros e pardos, jovens em início de vida profissional. Não é coincidência. Mercados mal pagos tendem a absorver quem encontra mais barreiras nos setores formais mais bem remunerados. Assim, a cultura, que em tese deveria ser espaço de transformação, frequentemente reproduz as mesmas desigualdades que diz combater.
Quando o salário cai, o preconceito sobe.
Reconheço essa dinâmica. A vi de perto. E é exatamente por isso que o nosso discurso progressista do setor cultural me incomoda quando não vem acompanhado de práticas concretas: porque o discurso bonito, sozinho, não paga aluguel. Não garante aposentadoria. Não protege quem adoece. Não retém quem quer construir uma carreira de verdade.
Celebrar que a cultura representa 3% do PIB é importante. Mas PIB não mede dignidade.
PIB não mostra quantos recebem abaixo do necessário. Não mostra quantos trabalham sem contrato, quantos adoecem mentalmente, quantas mulheres deixam o setor após a maternidade, quantos envelhecem sem previdência. A riqueza agregada pode coexistir com pobreza individual. No setor cultural brasileiro, frequentemente coexiste.
Apesar do discurso progressista, a situação do trabalhador cultural não difere, na essência, da realidade do trabalhador da indústria. A exploração aqui tem verniz diferente tem mais estética, mais vocabulário sofisticado, mais glamour de palco. Mas a estrutura é a mesma: lucro concentrado em cima, precariedade distribuída embaixo.
Os números confirmam o que o corpo já sabe: segundo o Observatório Fundação Itaú, ao decompor o PIB da Economia Criativa pela ótica da renda, a massa de lucros das empresas do setor equivale a 2,04% do PIB, dez vezes mais do que os 0,20% destinados à remuneração dos trabalhadores. O restante vai para o governo, em impostos. O trabalhador, aquele que carrega o piano, leva menos de um décimo do que a empresa que assina o espetáculo.
Se o Brasil quer levar a economia criativa a sério, precisa começar pelo trabalhador criativo. Isso significa política trabalhista específica para o setor, não apenas fomento a projetos. Significa modelos de formalização compatíveis com a sazonalidade real do trabalho cultural, sem que isso seja eufemismo para legalizar precarização. Significa transparência em cachês e remunerações. Significa proteção previdenciária adaptada a rendas irregulares. Significa dados permanentes sobre vínculos, gênero, raça e rotatividade. Significa sindicatos e cooperativas com força real.
Nenhum espetáculo existe sem quem carrega o piano
Sem o técnico. Sem a produtora. Sem a figurinista. Sem o montador. cultural. Sem o editor. Sem o iluminador. Sem um técnico.
Eu fui essa pessoa. Voltei a ser essa pessoa. E sei, por experiência que não está em nenhum relatório do IBGE, o que significa construir algo grandioso para que outros recebam o aplauso e o cachê.
A cultura brasileira é rica. Mas riqueza setorial não é justiça social.
O desafio não é apenas crescer. É distribuir.
Não é apenas inovar. É proteger.
Não é apenas criar valor. É valorizar quem cria.
Edra Moraes

Profissional de marketing, produtora cultural e escritora. Agitadora cultural e idealizadora do Movimento Londrina Criativa.
Prêmios: Obras Literárias Digitais 2020, “Antologia Poética | Seleção da Autora, Memorial Vivência, Literatura, Livro e Leitura Unespar, Cultura nas Redes 2020 e FCC Digital 2020.
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Respostas de 8
Pertinentes colocações, a cultura no Brasil é precária na base, mas as exigências para quem protagoniza de fato a cultura chega as raias do absurdo e o retorno é mínimo.
A melhor análise desse tema: profunda e verdadeira.
Este texto da Edra nos traz possibilidades de refletirmos a realidade a partir da observação de quem tem profundo conhecimento de causa. Realmente, a disparidade entre os ganhos na cadeia da produção cultural brasileira está longe de significar justiça social.
Esse debate já passou da hora de chegar na consciência do poder público e dos próprios agentes culturais, exigindo devida valorização.
O piano está cada vez mais pesado e a desvalorização de quem o carrega é flagrante. Os números do setor cultural impressionam, ao mesmo tempo em que maquiam a realidade. E, como dizem os grandes empresários do setor: “The show must go on.”
Concordo plenamente…
Análise realista, precisa, cirúrgica. Edra Moraes é sempre necessária e bem-vinda.
Excelente análise! Triste realidade.