S.O.S Ouro Verde e OSUEL

ouroverde-foto-UEL

Por Telma Elorza

Há coisas que acabam sem barulho. Não tem incêndio, não tem manchete nos jornais e não tem fita de isolamento para deixar a tragédia em evidência. Elas acabam no silêncio e na negligência. É exatamente esse tipo de morte lenta que está acontecendo com o Teatro Ouro Verde e com a Orquestra Sinfônica da Universidade Estadual de Londrina (OSUEL). E o mais perverso nisso é que todo mundo está vendo e, mesmo assim, quase nada está sendo feito.

Um grupo de produtores culturais de Londrina, nomes de peso na cultura da cidade, do Estado e do Brasil, está se organizando para denunciar o descaso – e o provável fim, se nada for feito – com esses dois patrimônios importantíssimos. E eles têm toda a razão!

Há anos não se faz concurso público para repor funcionários para manter o funcionamento pleno do teatro e não se recompõe o quadro de músicos da OSUEL. Essa ausência prolongada de reposição de profissionais tem provocado um processo de fragilização institucional que compromete seriamente a continuidade das atividades artísticas, técnicas, administrativas e culturais ali desenvolvidas. O resultado é um desmonte elegante, quase invisível. Não precisa fechar as portas oficialmente, basta ir tirando as mínimas condições de funcionamento. É a velha tática do “deixa morrer sozinho”.

O descaso se faz mais cruel porque não estamos falando de um teatrinho qualquer. O Ouro Verde é um patrimônio tombado pelo Estado do Paraná, projetado por Vilanova Artigas. É história em concreto, memória coletiva e um dos poucos espaços públicos de Londrina que ainda sustentam uma ideia de cultura que não depende de shoppings centers para atrair público ou patrocínios pontuais. E mesmo assim, está sendo deixado de lado, à própria sorte, segundo os produtores. Não por acidente ou por falta de aviso, mas por escolha política.

A OSUEL, reconhecida como a primeira orquestra sinfônica do Paraná –  criada oficialmente em 1984, antes mesmo da Orquestra Sinfônica do Paraná – , está sendo esvaziada. Os projetos comprometidos mesmo com a garra dos músicos que sobraram. Orquestra não pode ter improvisações. Não é como um grupo de Whatsapp, onde se chama alguém de última hora. É formação técnica de alto nível, construída ao longo de anos e inumeráveis ensaios. Quando se desmonta isso, não se reconstrói rápido. Às vezes, não se reconstrói nunca.

E tudo isso diz muito.  

Diz que cultura, na prática, ainda é tratada como perfumaria nos níveis municipal e estadual. É só observar que os vereadores rejeitaram a urgência na votação do Plano Municipal de Cultura 2026-2036, o que fez Londrina perder verbas disponíveis para a cultura como um todo. Agora, o governo do Estado deixa morrer à mingua dois grandes patrimônios culturais da cidade.

O que a gente vê é que nossas autoridades pensam em cultura como algo bonito para discursar em campanha, posar para fotos em aberturas de eventos como nossos festivais, mas que é algo dispensável na hora de investir. Formar plateia, montar orquestra, garantir acesso do público à Arte (com A maiúsculo mesmo), tudo isso perde feio para obras que rendem foto, placa e voto. Aliás, cadê as três UPAs que estavam sendo construídas?

Todos os produtores culturais com quem falei afirmam que a UEL segura o que dá, como dá. Mas nenhuma universidade pública sustenta equipamentos culturais desse porte, sem política consistente. Não é sobre esforço individual, é sobre estrutura básica. E isso depende de decisão do governo do Estado.

Mas talvez esse seja justamente o problema: quem decide não sente a perda.

Porque quem frequenta o teatro, quem acompanha a orquestra, quem valoriza a formação cultural contínua, não costuma ser prioridade eleitoral. É um público que não grita, não quebra, não viraliza. E aí fica fácil ignorar.

O Teatro Ouro Verde e a Orquestra Sinfônica da Universidade Estadual de Londrina (OSUEL) correm riscos por negligência do governo do Estado
OSUEL – foto: Fábio Alcover

Você não pode deixar o Ouro Verde a Osuel morrerem

Só que tem um detalhe que esse público precisa se atentar. Quando você deixa um equipamento cultural de alto nível morrer, está empobrecendo a cidade, o Estado, o repertório coletivo. Porque cultura não é entretenimento, é formação de pensamento, de identidade, de senso crítico. Ele não dá retorno imediato, mas sustenta todo o resto. Sem um Ouro Verde, sobra o que para Londrina?

Onde os grandes festivais – FILO, Festival de Música, de Dança, cirsulasons – vão apresentar grandes obras que lotam o teatro? Os grandes espetáculos nacionais que vêm para Londrina (sábado, dia 25, terá uma peça teatral de circulação nacional no nosso Ouro Verde)? Não temos um Teatro Municipal (cujo elefante branco que é sua estrutura inacabada virou motivo de vergonha).  

O que o grupo de produtores pede não é luxo. Ele não exige expansão faraônica, querem o básico: contratação via concurso público para reposição dos quadros –  tanto o técnico que o Ouro Verde precisa (hoje, está com dois funcionários prestes a se aposentarem) para condições mínimas de funcionamento, quanto para músicos da orquestra. Ou seja, o grupo pede que o Estado faça o trabalho que é dele.

Porque, quando a sociedade precisa implorar pelo mínimo, alguma coisa está muito errada.

O risco de fechamento do Ouro Verde não é exagero retórico. É consequência lógica de anos de negligência. E quando isso acontecer, vai ter nota oficial, vai ter lamento e vai ter promessa de “vamos reavaliar”. Sempre tem. O problema é que, até lá, o estrago já foi feito.  Veja o que aconteceu com o Teatro Zaqueu de Melo, que é municipal. Fechado há 9 anos e deteriorando cada vez mais. O que era para ser uma reestruturação necessária, exigida pelo Corpo de Bombeiros, virou uma bola de neve, com necessidade de grandes reformas e muito mais dinheiro que há quase uma década.

E diferente de um prédio, cultura não se reconstrói só com obra.

“Ai, Telma, dá tempo de reverter”? Dá. Mas exige vontade política real, não discurso. Exige mobilização de toda a sociedade, que precisa se juntar aos artistas, fazer barulho, manifestações e gritaria -num ano de eleições – para exigir do governo do Estado tome providências urgentes. O Ouro Verde e a OSUEL não são custos, são ativos culturais. São parte do que faz Londrina e o Paraná serem mais do que pontos no mapa.

O Grupo de Amigos e Colaboradores da Cultura de Londrina está se organizando e vai querer a sua colaboração. Quando tudo estiver definido, com e-mail, redes sociais e contatos de whatsapp, eu volto aqui para falar como participar. Porque vamos precisar que você se posicione, exija e ajude a manter o Ouro Verde e a OSUEL em plena atividade.

Foto principal: Teatro Ouro Verde/UEL

Telma Elorza 

É jornalista, escritora e contadora de histórias, trabalhou na Folha de Londrina por quase 20 anos e no Jornal de Londrina por outros 10 anos, locais onde atuou como repórter, redatora e editora nas áreas de Economia, Política e Agronegócio, entre outras. Em 2019, fundou seu próprio jornal, O LONDRINE̅NSE, e se tornou entrevistadora do O LONDRINE̅NSE POD.

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