Londrina Criativa e como a governança pode transformar potência em política pública

O LONDRINENSE - foto principal

Por Edra Moraes

Cidades no mundo inteiro descobriram que cultura não é ornamento, é infraestrutura para o desenvolvimento local. Festivais e políticas de economia criativa não são eventos no calendário, e sim motores de turismo cultural, renda, identidade e desenvolvimento urbano.

Foi estudando esse campo, observando casos mundo afora, que eu tive a certeza: Londrina já tem tudo que muitas cidades passam décadas tentando construir. E poderia se firmar como polo cultural da região, mas tudo está solto, se equilibrando em sonhos, paixão e “algum trocado para dar garantia”.

Valorizo festivais porque estudo Economia Criativa, mas também porque sou resultado direto deles. Participei como público, como produtora, como agente cultural em formação. Foi neles que encontrei meu acesso à arte contemporânea, à cultura crítica, à experiência de mundo. Por isso, quando falo dos festivais de Londrina, eu não falo apenas do evento, eu falo da base social que eles desenvolvem, a formação humana, a economia real, e o nosso pertencimento a esta cidade universitária e vibrante,.

O que cidades criativas nos ensinam sobre transformar cultura em infraestrutura

Cidades como Paraty, Stratford, Québec e Calgary nos ensinam que o desenvolvimento cultural não depende apenas de um grande evento, mas da construção de um sistema cultural contínuo, integrado ao território.

Paraty, com a FLIP, estruturou um calendário anual forte, que inclui fotografia, música, gastronomia e patrimônio, transformando cultura em atração permanente e combatendo a sazonalidade turística.

Stratford, no Canadá, em plena crise industrial, reinventou sua economia a partir do teatro, criando infraestrutura cultural sólida, formação profissional e impacto anual superior a CAD $140 milhões.

Québec projetou o Carnaval de Inverno justamente para ativar a economia nos meses mais difíceis do ano e venceu o vazio sazonal com estratégia.

E o que todos esses lugares têm em comum? A visão de longo prazo, governança, infraestrutura, calendário contínuo, métricas, cadeia produtiva local integrada e um projeto claro de cidade e, principalmente, seus festivais propagados nacional e internacionalmente.

Festivais: um patrimônio cultural de décadas sem política de continuidade

Uma cidade universitária, vibrante, diversa, sem praia, mas com vida noturna, repertório crítico, público formado e atenção: mais de 15 festivais com mais de 10 anos de existência.

Tivemos um dos primeiros programas municipais de incentivo à cultura do país. Temos festivais com 47, 45, 31, 20 anos de história. Festivais que formaram público, criaram carreiras, exportaram artistas, movimentaram a economia, moldaram nossa identidade urbana e ainda hoje, apesar do sucesso, se veem obrigados a uma forma de captação de recurso anualmente, impossibilitando planejamento a longo prazo e colocando em risco a sua continuidade.

Se há uma cidade no Brasil cujo imaginário coletivo foi costurado pelos festivais, esta cidade é Londrina.

E mesmo assim, seguimos tratando cultura como acontecimento, não como estratégia.

Turismo Cultural e desenvolvimento regional: os números que faltam em Londrina

Festivais produzem impacto concreto: aumentam o fluxo turístico, geram empregos diretos e indiretos, ativam cadeias como gastronomia, hotelaria e comércio, fortalecem sentimento de pertencimento, criam imagem de destino, qualificam a cidade e reduzem a sazonalidade econômica.

Mas, quando a estratégia não é estruturada, surgem riscos: dependência de eventos isolados, ausência de indicadores, ganhos que não reverberam localmente, vulnerabilidade a crises e descontinuidade política.

E é aqui que chegamos ao ponto decisivo: Londrina não precisa começar do zero. Precisa começar do óbvio. Daquilo que já existe, mas ainda não foi transformado pela governança.

Hoje poderíamos considerar o fórum de cultura uma ferramenta de governança? Se sim, como sensibilizá-los para os festivais?

Londrina já é uma cidade de festivais e precisa de uma governança e políticas públicas  para transformá-los em um sistema eficiente de Economia Criativa
Festival de Dança de Londrina 2019- Espetáculo Instagrimm-Cia. Jovem de Dança de Jundiaí- crédito ClarissaLambert

Porque a governança cultural é a única ferramenta capaz de garantir nosso futuro

Governança é alinhar poder público, iniciativa privada, artistas, universidades, turismo e sociedade civil em um pacto permanente, com responsabilidades, métricas, continuidade e visão de futuro. E é este futuro que na cultura é incerto, pois depende inclusive de diferentes visões políticas sobre a arte e cultura.

Com isto, o que propomos é a criação de um calendário de festivais e do aproveitamento da infraestrutura econômica e cultural para o desenvolvimento regional da cidade de Londrina.

Se tivéssemos uma governança estruturada e voltada para este que considero ser nosso “patrimônio imaterial”, já estaríamos:

  • Operando um calendário cultural estratégico, que distribui eventos ao longo do ano e atrai turistas.
  • Mensurando impacto real em dados: visitantes, pernoites, renda gerada, empregos, consumo local.
  • Integrando turismo, cultura e desenvolvimento econômico num mesmo plano.
  • Fortalecendo parcerias público-privadas e atraindo investimento continuado.
  • Garantindo que produtores locais, restaurantes, hotéis, técnicos, artistas e prestadores de serviço fiquem no centro da roda econômica.
  • E, principalmente, protegendo a cultura das oscilações políticas, para que ela não dependa do governo de plantão, porque já teria se tornado patrimônio estratégico da cidade não fosse a cultura tratada pelos achismos de políticos.

Londrina não precisa se tornar uma cidade de festivais. Londrina já é

FILO 2023 – divulgação/FILO

O que falta é a virada de chave: deixar de falar de cultura como evento e passar a falar de cultura como desenvolvimento territorial, política de longo prazo, economia e identidade urbana.

Precisamos transformar nossos 15 festivais longevos em um sistema, não em ilhas de produção, com boa parte da produção direcionada apenas para a viabilização financeira que não é garantida.

Transformar potência em política, talento em estratégia, vocação em futuro compartilhado.

Porque quando a cultura é governada com método, ela deixa de ser apenas experiência transformadora para quem vive a cidade para se tornar a razão para que o mundo queira estar nela.

Para mim, os festivais vão além de um evento, porque são eles que conseguem agregar em um mesmo espaço-tempo o consagrado, através de curadorias especializadas, o novo ousado, uma das características curatoriais de um evento cultural deste porte, e servindo de vitrine para aqueles que ainda estão buscando seus públicos. Acrescento ainda, e principalmente, formação de qualidade através de oficinas e workshops.

FIML 2019 – foto: Fábio Alcover

Eu acredito profundamente nisso, e este sempre foi o meu sonho desde o lançamento do Movimento Londrina Criativa em 2012.

E o assunto não morre aqui: nas próximas edições entrevisto importantes atores da área. Diretores e coordenadores de diferentes festivais darão o tom da nossa luta.

Acompanhe aqui na coluna a série “Londrina a cidade dos festivais”, e se junte a luta para tornar nossos festivais Patrimonio Imaterial da cidade.

Edra Moraes

O PROMIC de Londrina está sob ataque e não existe economia criativa sem orçamento robusto e gestores comprometidos

Profissional de marketing, produtora cultural e escritora. Agitadora cultural e idealizadora do Movimento Londrina Criativa. Prêmios:  Obras Literárias Digitais 2020“Antologia Poética | Seleção da AutoraMemorial Vivência, Literatura, Livro e Leitura UnesparCultura nas Redes 2020 e FCC Digital 2020.

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