A economia criativa não é apenas pauta de governo. É a estrutura que vai determinar se artistas, músicos, cineastas e designers terão — ou não — condições dignas de trabalho nas próximas décadas
Por Edra Moraes
Escrever este texto foi, antes de tudo, um acerto de contas comigo mesma. Há anos estudo e dissemino o conceito de Economia Criativa e, ainda assim, a pergunta que mais chega até mim continua sendo a mesma: o que é isso, afinal? E por que eu, criativo, deveria me importar? Sempre senti o peso dessa resposta.
Resumir demais é trair a complexidade do tema. Falar demais é perder quem está do outro lado. Há algo que beira a arrogância em dizer a um trabalhador da cultura que as decisões do governo sobre o seu segmento vão determinar o arco da sua carreira. Mas é exatamente isso.
Este mês me debrucei sobre estudos e, com o apoio da inteligência artificial, tentei organizar o que sempre senti, mas não conseguia clarificar com precisão. O resultado está aqui. Não porque a resposta seja simples, mas porque você é criativo. E ter consciência de classe pode ser a diferença entre uma carreira planejada e uma feita no susto, tentando aproveitar oportunidades raras.
Edital não é sistema
A confusão mais comum é resumir economia criativa a edital de fomento. Não é. Edital é uma ferramenta. Economia criativa é a arquitetura inteira de política pública, ecossistema de mercado e estratégia de Estado que trata o setor criativo como eixo de desenvolvimento econômico: cadeia produtiva, exportação de propriedade intelectual, investimento privado, projeção nacional e internacional.
Resumir tudo isso a editais é como resumir a indústria automobilística a um programa de subsídio. O subsídio existe, mas não é o setor. Essa confusão não é culpa da classe criativa é resultado de décadas em que o único vocabulário disponível foi exatamente esse.
A pergunta que cada país fez e como isso mudou tudo
Quando se estuda os países que mais avançaram nesse tema, o que salta aos olhos não é a quantidade de dinheiro investido. É a pergunta que cada governo fez antes de investir.
O Brasil pergunta: “Como a economia criativa pode reduzir desigualdade e incluir mais pessoas?”
O Canadá pergunta: “Como a economia criativa pode fortalecer nossa identidade cultural e competir no mundo ao mesmo tempo?”
O Reino Unido pergunta: “Como a economia criativa pode ser nossa principal vantagem competitiva global?”
Essas três perguntas parecem variações do mesmo tema. Não são. Cada uma gera um modelo distinto de política pública, uma métrica diferente de sucesso e instrumentos completamente distintos de atuação.
A pergunta que um governo faz determina o sistema que ele constrói — e o sistema que existe determina as condições em que você vai trabalhar.
Entender isso é entender a economia criativa de verdade.

O que o Canadá e o Reino Unido já provaram
O modelo canadense é, até hoje, o que considero mais replicável para a nossa realidade. Ameaçado pela vizinhança cultural dos Estados Unidos, o Canadá construiu, a partir dos anos 1940, um sistema sofisticado de financiamento criativo com vários níveis e tipos de recursos financeiros — o funding stack (*)— que acompanha o criador do projeto inicial até a distribuição internacional.
O resultado: terceiro maior exportador de talento musical do mundo, 12,9% do emprego total em indústrias criativas. Tudo isso sem apagar vozes indígenas ou transformar arte em produto sem identidade. O modelo canadense faz as duas coisas ao mesmo tempo: protege e compete. Porque foi essa a pergunta que ele se fez.
O Reino Unido foi além: trata indústrias criativas como setor de P&D, com a mesma lógica da biotecnologia. Investiu £380 milhões em 2025 em clusters que conectam universidades à indústria criativa e criou um mecanismo inédito — usar propriedade intelectual como garantia de crédito bancário. Cada £1 público investido gerou £5 privados. A meta é dobrar o investimento empresarial no setor até 2035. A ambição declarada é uma só: superpotência criativa global.
Porque foi essa a pergunta que o Reino Unido se fez.
O Brasil perdeu 14 anos — mas vamos recuperar
A Secretaria de Economia Criativa foi criada em 2004, extinta em 2011 e sistematicamente ignorada entre 2019 e 2022. Enquanto Canadá e Reino Unido consolidavam ecossistemas, o Brasil desmontava o pouco que havia construído.
O atraso é real. Mas não é irreversível. Em 2025, a Secretaria foi recriada. Para 2026, estão previstos o Programa Nacional Brasil Criativo e o Observatório Celso Furtado que vai produzir, pela primeira vez de forma sistemática, dados confiáveis sobre o setor. São os fundamentos certos. O Brasil está onde o Canadá estava nos anos 1980.
A diferença: o Canadá tinha uma ameaça externa que criou urgência política e garantiu continuidade institucional por décadas. Nós vamos precisar criar essa urgência por vontade própria.
Às vezes a direção é mais importante do que a velocidade. Chegar rápido ao lugar errado custa caro — e o Brasil já pagou esse preço. O que importa agora é que a pergunta que estamos fazendo seja a certa. E que ela não mude com cada troca de governo.
Por que isso define a sua carreira criativa
Sejamos diretos: a arte e a cultura não se sustentam só por artistas. Envolvem técnicos de som e luz, cenógrafos, programadores, gestores, distribuidores e toda a cadeia que dá escala ao talento criativo.
O que está em jogo para cada um deles: financiamento além de editais, com funding stack para toda a cadeia; mercado privado que reconhece e remunera o ofício especializado; exportação estruturada, com propriedade intelectual protegida; dignidade profissional para técnicos — e não apenas para as estrelas.
O ecossistema só nasce quando a classe criativa, artistas, técnicos, chão de fábrica, etc. se reconhece como classe e entende que tem interesses comuns e passa a ocupar o debate.
Consciência de classe não é pauta ideológica. É estratégia de sobrevivência profissional.
Tem dúvidas, discordâncias ou experiências com políticas de economia criativa? Os comentários estão abertos, essa construção precisa de mais vozes. Na próxima semana aprofundaremos no modelo brasileiro.
* O Canadian Media Fund financia o desenvolvimento inicial do projeto, a Telefilm Canada entra na fase de produção, e o Creative Export Canada banca a internacionalização. Cada instrumento tem critérios, volumes e objetivos distintos. Juntos, formam um sistema contínuo — não um edital isolado que você ganha ou perde e recomeça do zero. A lógica é a mesma de uma startup de tecnologia: seed, série A, série B. Só que aplicada à cultura.
Foto principal: Montagem de Edra Moraes
Edra Moraes

Profissional de marketing, produtora cultural e escritora. Agitadora cultural e idealizadora do Movimento Londrina Criativa.
Prêmios: Obras Literárias Digitais 2020, “Antologia Poética | Seleção da Autora, Memorial Vivência, Literatura, Livro e Leitura Unespar, Cultura nas Redes 2020 e FCC Digital 2020.
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Respostas de 3
Oi Edra. Muito legal o seu artigo e a comparação entre os modelos brasileiro, canadense e britânica. Uma dúvida sobre o funding stack no Canadá: ele é aplicado somente para a indústria audiovisual? Outros segmentos e atividades também são beneficiados por fomento nesse modelo? E o uso de propriedade intelectual como garantia de crédito bancário no caso do Reino Unido, como isso é operacionalizado?
Sim, didaticamente perfeito.
Perfeito. Vou pensar mais sobre isso. Grata.