A inovadora Economia Criativa ainda está no século 19

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Nos bastidores da 24ª FLIP, um homem carregando caixas de livros sobre o próprio lombo escancarou a desigualdade estrutural que a economia criativa brasileira insiste em não medir

Por Edra Moraes

Volto da 24ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty com a certeza de que participei de uma das maiores festas literárias do país. Foram 40 mil pessoas circulando por Paraty entre os dias 22 e 26 de julho, um crescimento de 17,65% em relação à edição anterior — a maior FLIP da história.

Poderia escrever sobre os debates, os encontros, os lançamentos e a potência da Casa Paraná. Deixo essa parte para a nossa assessoria de imprensa. Ela contará muito melhor do que eu o sucesso da nossa participação.

Eu quero falar de outra coisa. Quero falar da graxa. Dos carregadores de piano da economia criativa.

A crítica não é à FLIP. O festival apenas me fez enxergar, com uma clareza quase dolorosa, uma estrutura que se repete em praticamente todos os grandes eventos culturais do Brasil.

O discurso muda, a estrutura não

Nós gostamos de dizer que a economia criativa representa um novo modelo de desenvolvimento. Falamos em inovação, sustentabilidade, inclusão, impacto social. Mas continuamos organizando o trabalho da maneira mais antiga possível.

Mudam os discursos. Mudam os editais. Mudam os patrocinadores. A estrutura continua a mesma.

Eu vi um homem carregar sobre o próprio lombo caixas de livros, atravessando as ruas de pedra de Paraty aos gritos para que os turistas abrissem caminho. Não era uma performance. Era trabalho. Era um trabalhador sustentando, literalmente nas costas, uma parte da maior festa literária do país.

Foi impossível não pensar na contradição. A economia criativa possui uma capacidade extraordinária de gerar valor. Mas também parece ter desenvolvido uma capacidade igualmente extraordinária de concentrar esse valor. No palco, cachês elevados. Nos bastidores, diárias irrisórias. No palco, reconhecimento. Na graxa, invisibilidade.

Foi então que descobri outra realidade: aquele trabalhador sequer possuía seu próprio carrinho. O carrinho era emprestado. Ele conseguia fazer uma corrida com a carga mais pesada. Depois, voltava ao velho método: o próprio corpo. O próprio lombo.

A FLIP é só a ponta visível de um problema de bilhões

O que vi em Paraty não é exceção. É regra estatística. O setor de eventos no Brasil movimenta R$ 813,5 bilhões por ano e gera 12,7 milhões de empregos diretos, terceirizados e temporários, segundo o III Dimensionamento do Setor de Eventos no Brasil 2024/2025 — o maior estudo já feito sobre o mercado, conduzido pelo Observatório da Indústria do Senai Ceará com apoio do Sebrae e da Abeoc Brasil.

O tamanho do bolo impressiona. A distribuição, não. Levantamento do IBGE compilado pela Abrafesta aponta que cerca de 10 milhões de trabalhadores informais do país atuam no setor de eventos, e que aproximadamente 80% da mão de obra da área opera sem carteira assinada, sem previdência, sem rede de proteção. O presidente da entidade, Ricardo Dias, resume o problema com precisão: a informalidade impõe dificuldades adicionais justamente a quem está na linha de frente, carregando, literalmente, o peso do evento.

Isso não é exclusividade da FLIP. É a fotografia estrutural de como o Brasil organiza o trabalho cultural: reconhece o setor nos números do PIB e esquece de reconhecê-lo na folha de pagamento.

Carregar 60 kg sozinho é contra a lei, mas segue acontecendo

Aqui vale reconhecer um ponto positivo: o Brasil tem legislação trabalhista específica para isso, e ela é rigorosa no papel.

A CLT fixa em 60 kg o peso máximo que um homem adulto pode levantar, e somente em caráter excepcional, enquanto a NR-17, a norma regulamentadora de ergonomia, determina que não deve ser exigido nem admitido o transporte manual de cargas quando isso for capaz de comprometer a saúde ou a segurança do trabalhador. Organismos técnicos internacionais recomendam limites bem mais conservadores para o transporte manual regular: algo entre 23 kg e 25 kg.

A norma existe. O problema é a distância entre a norma e a rua de pedra. Em contratações informais, com trabalhadores avulsos, diaristas e freelancers sem vínculo, sem RH, sem serviço especializado em segurança do trabalho, a lei que protege no papel simplesmente não chega ao corpo de quem carrega.

Não é falha de legislação. É lacuna administrativa, o tipo de descompasso que se repete sempre que um setor cresce mais rápido do que a capacidade do Estado de fiscalizá-lo e formalizá-lo.

Quem carrega o piano nunca aparece na plateia

Já escrevi sobre isso ao falar do chão de fábrica da cultura, e novamente ao perguntar quem carrega o piano da riqueza cultural brasileira. Os números que levantei então seguem valendo: a cultura emprega 5,9 milhões de pessoas e movimenta mais de R$ 910 bilhões, segundo o IBGE — mas 44,6% desses trabalhadores estão na informalidade, e a massa de lucros das empresas do setor equivale a dez vezes mais do que a remuneração destinada aos trabalhadores, segundo o Observatório da Fundação Itaú.

Paraty apenas deu rosto, nome e lombo a esses números. Aquele carregador não é estatística. É o corpo que a estatística tenta descrever e sempre falha em capturar.

Existem soluções e nenhuma delas é cara

Não estamos falando de um problema sem solução. Existem carrinhos de alumínio. Existem carrinhos motorizados leves, adaptados a piso irregular. Universidades, escolas de design e empresas poderiam desenvolver equipamentos específicos para cidades históricas — eficientes, ergonômicos, bonitos — que poderiam inclusive ser patrocinados por editoras e marcas, tornando-se parte da identidade visual do próprio evento.

Existe também uma solução mais simples: educação. Nós educamos o visitante para separar o lixo, lavar a embalagem antes de descartá-la, preservar o patrimônio histórico. Tudo isso é importante. Mas esquecemos de ensinar que, enquanto milhares de pessoas passeiam e celebram a literatura, existem trabalhadores exercendo seu ofício ao lado delas.

O mínimo que se espera é abrir caminho. Não dificultar o trabalho de quem está carregando a festa nas costas.

O espelho que a economia criativa evita olhar

Aquele homem não carregava apenas caixas de livros. Carregava uma estrutura inteira. A mesma estrutura que naturaliza diferenças salariais absurdas. A mesma estrutura que transforma quem aparece no palco em protagonista e quem torna tudo possível em mera paisagem.

Talvez seja hora de a economia criativa olhar para o próprio espelho. Porque não basta produzir discursos progressistas. É preciso que eles cheguem até a graxa. Até os carregadores de piano. Até aqueles que chegam antes da abertura dos portões e permanecem depois que o último aplauso termina.

Enquanto eles continuarem invisíveis, a economia criativa continuará reproduzindo, com uma linguagem mais bonita, as mesmas desigualdades que diz combater.

Quando nos despedimos, aquele trabalhador resumiu tudo o que eu tentava compreender. Com um sorriso cansado, equilibrando o peso sobre os ombros, depois de muitos gritos para abrir caminho, ele disse:

“Ô, dona… aqui metade é surdo. E a outra metade faz de conta que é intelectual, mas nunca leu um livro.”

Poucas frases explicam tão bem o abismo entre o discurso e a realidade.

Você já presenciou — ou viveu na pele — essa distância entre o palco e a graxa da cultura? Os comentários estão abertos. Essa construção precisa de mais vozes.

Foto: Imagem gerada por IA

Edra Moraes

Na 24ª FLIP, um carregador sem carrinho próprio expôs a desigualdade estrutural da economia criativa brasileira. Dados, legislação trabalhista e soluções concretas

Profissional de marketing, produtora cultural e escritora. Agitadora cultural e idealizadora do Movimento Londrina Criativa. Prêmios:  Obras Literárias Digitais 2020, “Antologia Poética | Seleção da Autora, Memorial Vivência, Literatura, Livro e Leitura Unespar, Cultura nas Redes 2020 e FCC Digital 2020. Me siga nas redes sociais: Facebook, Instagram @edra_moraes e @londrinacriativamovimento, YouTube @edra-moraes27 Contatos: e-mail edra.moraes27@gmail.com e fone/whatsapp: (41) 997722447.

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Respostas de 13

  1. Edra Moraes gratidão pela sensibilidade e percepção de uma realidade, invisível. você relata e eu me vi na cena, como ausente, indiferente. Não fui a FLIP, mas reconheço em eventos que a cena se repete.
    Tomara que essa realidade e essas pessoas sejam impactadas positivamente, por perspectivas como você relata.

  2. Texto e reflexão excelentes! É triste como a cultura e as artes estão entre os setores mais informais e desvalorizados no dia a dia.

  3. Muito obrigada. Precisamos tornar visível o invisível útil. Me coloco como pessoa que tenta sair do sistema. Mas a engrenagem é poderosa. Penso em limites de diferenças salariais. Começar po aí

  4. Edra Moraes é dessas vozes essenciais, pelo que encerra de lucidez e humanidade. A divisão nas escalas dos aplaudidos, dos quem aplaude e quem sustenta toda essa máquina, carregando o piano – os da graxa – é aviltante. Ótimo artigo.

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