Por Edra Moraes
No artigo anterior, abordei aqui como cidades do mundo inteiro recorrem à cultura, festivais de artes, museus, galerias, bienais, circuitos criativos, como estratégia de desenvolvimento e atração turística. Há cidades que passam décadas tentando erguer, artificialmente, o que não têm: identidade cultural, vocação artística, lastro simbólico. Muitas investem fortunas tentando “surfar” tendências como cinema ou audiovisual e fracassam porque tentam construir a casa pelo telhado. Mas esse é assunto para outra coluna.
Hoje, quero falar de algo simples, porém revelador: Londrina já possui tudo aquilo que tantas cidades do mundo gostariam de ter. Tem história, tem artistas, tem continuidade, tem público, tem paixão e, sobretudo, tem festivais que atravessaram gerações. O que falta não é vocação é amarrar essa força em uma política pública capaz de transformar potencial em legado.
A formação de uma Identidade Cultural
Falo isto porque estudo Economia Criativa, mas principalmente porque sou filha dos festivais. Fui público, produtora, agente cultural em formação. Foi nesses eventos que encontrei meu acesso à arte contemporânea, à crítica, ao debate, ao mundo que se expande para além das fronteiras da cidade. Quando falo dos festivais de Londrina, não falo de evento: falo de formação humana, de economia real, de pertencimento a esta cidade universitária e vibrante.
Na semana passada, realizamos uma coleta informal de dados sobre os festivais da cidade. O objetivo era materializar uma impressão já antiga: Londrina é (sempre foi) uma Cidade dos Festivais. Conversamos com produtores, gestores e trabalhadores da cultura. Recebi relatos profundos, emocionados, cheios de consciência histórica.

Os números surpreendem pela consistência: 24 festivais ativos, sendo 13 com mais de 20 anos e 10 com mais de cinco anos. Uma longevidade rara no Brasil, especialmente quando a grande maioria das políticas públicas beneficia eventos pontuais. Entre os relatos, um sentimento se repete: “Os festivais são patrimônio imaterial da cidade.”
A origem de um conceito
Essa percepção surgiu muito antes de qualquer estudo acadêmico. Foi a jornalista Célia Musilli, da Folha de Londrina, quem cunhou pela primeira vez, em 9 de abril de 2019, no caderno Transmídia (edição geral de Patrícia Maria Alves), a expressão “Cidade dos Festivais”. Desde então, o termo ganhou vida própria, virou espécie de slogan afetivo e agora começa a ganhar corpo político.
Como prometido aos leitores, iniciamos hoje a publicação das entrevistas recebidas durante essa pesquisa. Começamos pela primeira enviada, um depoimento que sintetiza o espírito de resistência, continuidade que marca nossos festivais, mas também um sentimento comum de que não importa o número de edições, você estará sempre recomeçando. Se você tem experiências para compartilhar, entre em contato.
Vozes do Festival: O CICLO como movimento cultural

A seguir, o depoimento de Maria Fernanda Coelho, e Patrícia Braga Alves, da Palipalan Arte e Cultura sobre o CICLO- CICLO – Circuito de Artes e Conceitos de Londrina:
“No caso do CICLO, o formato atual nasceu de uma trajetória longa, feita de continuidade, parcerias e da consciência de que o verdadeiro valor de um projeto cultural está na sua capacidade de permanecer e se reinventar junto com as pessoas que o constroem.
A cada edição, buscamos preservar e fortalecer os vínculos com os trabalhadores da cultura que estão conosco desde o início. Essa permanência não é apenas operacional, é um ato político. Ela garante consistência artística, qualidade técnica e uma memória coletiva que transforma o festival em uma comunidade, e não apenas em um evento. Por isso preferimos chamar o Ciclo de um movimento. Isso vale para os fornecedores, com quem cultivamos relações de confiança e profissionalismo. Essa fidelização, construída ao longo do tempo, dá solidez e coerência ao nosso fazer.
Mas há um desafio que não podemos ignorar: a cada nova edição, é como se precisássemos começar tudo de novo. Mesmo com resultados concretos, público consolidado e reconhecimento, ainda há uma enorme fragilidade na fidelização de patrocinadores e na estabilidade dos mecanismos de financiamento. Para festivais jovens, isso significa reconstruir pontes e reafirmar a relevância a cada ano. Esse processo de recomeço constante consome energia, tempo e recursos que poderiam ser dedicados ao planejamento de longo prazo, justamente o que transformaria essa força criativa em uma política pública consistente e duradoura.
Além disso, seguimos enfrentando que a maior parte dos recursos se concentra nas grandes capitais, o que torna mais difícil consolidar projetos culturais fora desses eixos. Iniciativas de grande impacto regional, acabam tendo que provar seu valor repetidamente, enquanto boa parte dos investimentos públicos e privados continua circulando nos mesmos centros. Essa desigualdade territorial impede que cidades como Londrina expressem plenamente o potencial cultural que já têm, e que é imenso.”
O desafio do recomeço perpétuo
O depoimento revela um desafio estrutural que não pode ser ignorado: a cada nova edição, é como se fosse preciso começar tudo de novo. Mesmo com resultados concretos, público consolidado e reconhecimento, ainda há uma enorme fragilidade na fidelização de patrocinadores e na estabilidade dos mecanismos de financiamento.
Para festivais consolidados, esta sensação de recomeço também acontece. A longevidade não é garantia de recurso. Além disso, persiste a concentração de recursos no eixo Rio/São Paulo, tornando mais difícil consolidar projetos culturais fora desses eixos. Iniciativas de grande impacto regional acabam tendo que provar seu valor repetidamente. Essa desvantagem de localização impede que cidades interioranas, como Londrina, consigam vencer as barreiras trazidas pela concentração de patrocinadores no eixo Rio São Paulo, e a nível estadual, na capital.

Do potencial à permanência dos festivais
Como destacam os realizadores do CICLO: “O que falta à cidade não é talento, nem vocação, nem capacidade de realização; tudo isso Londrina tem de sobra. O que precisamos agora é transformar essa força em permanência: organizada, estruturada e capaz de dar voz a todos os festivais, unindo-os em um movimento coeso, representativo e duradouro.”
Por que buscar o título de Patrimônio Imaterial? [baixe o e-book “O que é Patrimonio Imaterial logo abaixo.}
Transformar nossos festivais em patrimônio imaterial, seja em nível municipal, estadual ou federal, não é apenas um gesto afetivo. É uma estratégia de desenvolvimento. Quando um bem cultural recebe esse reconhecimento:
1. Ganha proteção legal e garantia de continuidade O poder público passa a ter responsabilidade formal de preservar, documentar e apoiar esse patrimônio. Os festivais deixam de ser eventos isolados e passam a ser bens que precisam existir para manter viva a identidade cultural da cidade.
2. Abre portas para novas fontes de financiamento O título permite acessar editais de salvaguarda e preservação, fundos específicos para patrimônio, maior facilidade para captação via leis de incentivo, prioridade em programas nacionais de cultura e emendas parlamentares destinadas à memória e identidade. Ou seja, recursos que hoje não chegam podem finalmente chegar.
3. Fortalece a marca territorial de Londrina A cidade passa a se apresentar, oficialmente, como território criativo. Isso atrai turismo cultural, investimentos, circulação de artistas e pesquisadores, parcerias internacionais e oportunidades em redes como UNESCO Cidades Criativas.
Da vocação à política pública
Em suma: o reconhecimento alinha identidade, economia e desenvolvimento. Londrina não precisa inventar nada. Já somos, há décadas, uma Cidade dos Festivais. Falta apenas transformar esse fato em política pública e em orgulho coletivo.
O momento exige visão estratégica: reconhecer o que já existe, proteger o que foi construído e estruturar o que pode se tornar.
A paixão sustentou os festivais até aqui. Agora, é hora de garantir que essa paixão se transforme em patrimônio e não apenas simbólico, mas institucional, protegido e valorizado como merece.
Esta é a primeira de uma série de entrevistas com realizadores culturais de Londrina. Compartilhe sua experiência: este espaço é de todos nós.
[baixe o e-book “O que é Patrimonio Imaterial?]
Edra Moraes

Profissional de marketing, produtora cultural e escritora. Agitadora cultural e idealizadora do Movimento Londrina Criativa. Prêmios: Obras Literárias Digitais 2020, “Antologia Poética | Seleção da Autora, Memorial Vivência, Literatura, Livro e Leitura Unespar, Cultura nas Redes 2020 e FCC Digital 2020.
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