Londrina, Cidade dos Festivais: o paradoxo de institucionalizar o que já existe

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Quando décadas de vocação cultural se deparam com os desafios e as contradições da formalização patrimonial

Por Edra Moraes

Há um fenômeno que se desenrola em Londrina há décadas, quase imperceptível em sua constância: a cidade respira festivais. Este texto encerra, em 2025, a série de artigos dedicada a essa reflexão — uma pauta que não se esgota aqui e que será retomada em 2026. Foi a jornalista Célia Musilli, da Folha de Londrina, quem nomeou essa realidade em 9 de abril de 2019, ao cunhar a expressão “Cidade dos Festivais”. O termo não inventou uma vocação; apenas conferiu linguagem a algo que já pulsava nas ruas e nas memórias coletivas. Não de forma ocasional, mas como parte estruturante de sua identidade urbana

O inventário invisível

Levantamentos preliminares apontam para 24 festivais culturais ativos em Londrina. Destes, 13 mantêm continuidade há mais de 20 anos, e 10 ultrapassam cinco anos de existência. São números que, quando contextualizados, revelam algo raro no panorama cultural brasileiro: longevidade.

Teatro, dança, cinema, literatura, música, arte urbana. Há aqui uma espécie de infraestrutura simbólica invisível, tão fundamental quanto viadutos e avenidas, mas raramente mapeada, raramente protegida.

O Movimento Londrina Criativa, constituído desde 2012, observa esse fenômeno de dentro. Não como entidade salvadora, mas como articulador de perguntas: o que sustenta essa continuidade? Qual a diferença entre evento cultural e patrimônio cultural? A institucionalização fortalece ou engessa práticas culturais vivas?

Edra Moraes do Movimento Londrina Criativa fala aos vereadores sobre os benefícios da economia criativa como estratégia para o desenvolvimento regional, atendendo convite do presidente da Câmara, vereador Gerson Araújo (PSDB). foto- divulgação Câmara de Vereadores de Londrina (03.07.2012)

Entre proteção e engessamento

A categoria patrimônio cultural imaterial carrega tensões conceituais. Criada pela UNESCO em 2003, busca proteger “práticas vivas transmitidas geracionalmente”. Mas o que acontece quando o Estado institucionaliza aquilo que, por definição, é dinâmico, mutável, orgânico?

São Paulo declarou a Turma da Mônica patrimônio municipal — uma obra midiática urbana, distante do “folclore tradicional”. O Rio de Janeiro elevou o Clube do Samba a patrimônio. Esses precedentes demonstram uma expansão conceitual importante: patrimônio imaterial não se restringe a manifestações rurais ou folclóricas.

A fragilidade estrutural

Os depoimentos coletados revelam um padrão recorrente: “a cada edição, é como se precisássemos começar tudo de novo”. Festivais com décadas de existência, público consolidado e reconhecimento simbólico ainda precisam provar seu valor ano após ano. Patrocinadores oscilam; equipes se desfazem e se recompõem.

Essa instabilidade crônica não é acidente é característica estrutural das políticas culturais brasileiras, que privilegiam projetos pontuais em detrimento de programas de longo prazo. Reconhecemos a importância da continuidade, mas financiamos a descontinuidade.

O reconhecimento patrimonial poderia inverter essa lógica.

Geografia do financiamento

A maior parte dos recursos culturais concentra-se nas capitais, especialmente no eixo Rio–São Paulo. Iniciativas de grande impacto regional, como os festivais de Londrina, operam em desvantagem estrutural.

Encerramento festival 2025 (Foto: Fábio Alcover)

Quando Londrina se apresenta como Cidade dos Festivais, disputa uma narrativa: existe produção cultural relevante fora dos grandes centros. Mas essa disputa é desigual. Os mecanismos de visibilidade e os fluxos de investimento continuam favorecendo as capitais.

O reconhecimento patrimonial poderia reequilibrar essa geografia.

A lei existe e o paradoxo também

Sim, há uma lei, e um evento já foi salvaguardado. O que me impressiona é que desconheço o evento.

A legislação municipal de Londrina e especialmente a Lei nº 13.902/2024 define o Patrimônio Cultural Imaterial como parte da identidade e da memória londrinense. Utiliza instrumentos como a Listagem de Bens de Interesse de Preservação (para expressões como “pé-vermelho”) e o tombamento (para bens materiais), com apoio do Conselho Municipal (COMPAC) e da Secretaria de Cultura, visando identificar, salvaguardar e valorizar essas manifestações, por meio de políticas públicas e parcerias para sua continuidade, como o chamado “Arraiá Londrina”.

Sou londrinense, nascida e criada, e nunca ouvi falar do Arraiá de Londrina. Ainda assim, o evento é citado como manifestação cultural consolidada: teve sua primeira edição em 2023 e, em 2025, celebrava sua terceira edição, e está em processo de ser reconhecido como patrimônio cultural imaterial do Paraná. As informações sobre este processo não são claras. Há uma matéria que diz que a lei teria sido revogada,mas até o fechamento deste artigo não foi possível confirmar.

Enquanto isso, festivais com mais de 40 anos de história seguem com a sensação permanente de recomeço. Vontade política? Outros interesses? Não importa. O que importa é que, se nós, enquanto classe cultural, não nos unirmos, continuaremos sendo ultrapassados, invisibilizados e fragilizados.

Acervo Londrix

Horizontes em aberto

A patrimonialização dos festivais de Londrina é urgente, viável e complexa. É viável porque a base legal existe. É empoderadora porque pode garantir recursos. É complexa porque é, necessariamente, coletiva.

O Movimento Londrina Criativa, ao coordenar esse processo, não promete soluções fáceis. Aponta um campo de tensões que precisa ser navegado coletivamente. Londrina já é, na prática, uma Cidade dos Festivais. Se será também institucionalmente depende de muitos fatores: vontade política, mobilização social, capacidade técnica e recursos financeiros.

Depende, sobretudo, de como responderemos às perguntas que este texto levanta, mas não resolve. Talvez a força desse movimento resida justamente na coragem de perguntar, sem promessas fáceis, reconhecendo o que se ganha  e o que se perde quando décadas de vocação cultural se deparam com os desafios da formalização patrimonial.

2026: entre o planejado e o imprevisto

Há algo paradoxalmente libertador em reconhecer que processos culturais não se submetem inteiramente à planificação. Enquanto elaboramos dossiês, articulamos políticas e mobilizamos vontades, a cidade continua produzindo festivais: alguns resistirão, outros desaparecerão, novos surgirão.

O ano de 2026 pode trazer o reconhecimento patrimonial almejado. Pode não trazer. Pode trazer algo imprevisto que redimensione toda essa discussão. A história da cultura brasileira ensina que conquistas significativas frequentemente emergem de rotas não planejadas de encontros fortuitos entre mobilização social e janelas políticas inesperadas.

Às vezes, o acaso traz boas novas: uma emenda parlamentar aprovada, um gestor público sensibilizado, uma articulação que funciona quando não se esperava.

Orquestra Jovem, Festival de Música 2022 (Foto- Fabio Alcover)

Tudo é possível quando há movimento, quando há reflexão crítica sobre os próprios limites, quando há disposição para navegar paradoxos em vez de negá-los.

Londrina não precisa de milagres para se tornar, institucionalmente, a Cidade dos Festivais. Precisa do que já está em curso: continuidade, articulação e aquela combinação rara entre persistência metodológica e abertura ao imprevisível que caracteriza processos culturais genuínos.

O que vier em 2026 será resultado tanto do que plantarmos quanto do que soubermos colher quando o inesperado se apresentar.

Fotos: capa- Festival de Dança de Londrina (Fábio Alcover), festivais interna (acervo Londrix)

Edra Moraes

Profissional de marketing, produtora cultural e escritora. Agitadora cultural e idealizadora do Movimento Londrina Criativa. Prêmios:  Obras Literárias Digitais 2020“Antologia Poética | Seleção da AutoraMemorial Vivência, Literatura, Livro e Leitura UnesparCultura nas Redes 2020 e FCC Digital 2020.

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Leia mais sobre Economia Criativa

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Respostas de 3

  1. Cada vez mais, é necessário que haja pessoas como você que intercedam pela cultura e manutenção da arte nas cidades.
    Todos ganham quando a arte e as culturas são valorizadas.
    Fazer arte é humanizar♡ parabéns

  2. Todas as vezes que viajo e digo que sou de Londrina os olhos das pessoas brilham de vontade de vir para cá por causa da repercussão cultural que os festivais trouxeram na mídia e no imaginário do público por mais de 40 anos. Dos últimos anos para cá abaixo os olhos para não contar como estes eventos foram vilipendiados no decorrer dos anos com as políticas públicas e fico sempre na esperança que eles ressurjam na força dos produtores culturais e na consciência pública que eles são necessários- tanto para o desenvolvimento cultural e financeiro desta cidade – como para nossa alegria, desenvolvimento e saúde mental. Cultura é vida!

    1. Mesmo sentimento que tenho. Até na Irlanda eu tive o prazer de falar de Londrina. A cidade construida por ingleses, visionários. Que apesar da pouca idade, já tinha cinema, teatro, e festivais. Agora na mão de ignorantes perigosos, que se aproveitam de ignorantes uteis.

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