Você sabe com quem está falando?

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Quem já levou uma carteirada na vida, sabe o que é a vontade de jogar a educação no lixo. Mas quando se está no ambiente de trabalho, o bom senso manda a gente ser fina e elegante, para não perder a classe.

Só quem já ouviu o famoso “você sabe com quem está falando?” sabe o que estou dizendo. Ouvi da mulher de um prefeito, ou seja, da primeira dama. E tudo aconteceu por causa de o que a gente chama no jornalismo de “ruído na comunicação”.

Pois bem, escrevia, fotografava e editava um caderno especial voltado para os mulheres numa cidade de porte médio do interior de São Paulo. Como as pautas eram linkadas com o departamento comercial, fui fazer uma reportagem sobre massagem tântrica, oferecida por uma profissional da clínica da primeira dama.

Na época quase ninguém sabia o que era e entre as explicações constava que “melhorava o desempenho sexual”. Um leitor ligou pedindo o telefone da clínica. Lá, alguém deu o número da massagista. E o velho tarado ligou para ela fazendo propostas indecorosas. E, claro, a responsabilidade caiu em mim. Quando a madame veio tirar satisfação (como se eu pudesse responder pelo comportamento dos outros) e faltou argumento, ela saiu com essa. O que prontamente respondi: eu sei com quem estou falando, assim como você também sabe com quem está . E como carteirada com quem tem razão, não funciona, a história só rendeu vergonha. No caso, para ela.

De acordo com a Wikipedia, “carteirada” é uma situação em que se busca vantagem ou privilégio em razão de seu cargo, profissão, condição financeira ou social. Usualmente, na ânsia de obter pequenas vantagens não financeiras, como por exemplo valer-se de sua condição para facilitar a obtenção de preferências, favores, tolerâncias e/ou cortesias, fato que, em condições normais, não seria acessível aos cidadãos comuns.

O antropólogo Roberto DaMatta, em sua obra-prima Carnavais, Malandros e Heróis, afirma que a expressão já está enraizada na sociedade brasileira, evidenciando a dificuldade que o brasileiro tem em observar as regras, encontrando mecanismos para burla-las utilizando o famoso “jeitinho brasileiro” para obter vantagens próprias, quando não dá uma carteirada para se valer da posição que ocupa.

Não é preciso ir muito longe e nem de teoria para ver tudo isso acontecer. É o juiz que não quer usar máscara, o doutor que pisa em cima do porteiro ou o advogado que humilha a atendente.

O filósofo Mario Sérgio Cortella escreveu sobre o assunto e brilhantemente mostra a pequenez daqueles que pretendem mostrar sua “superioridade” através do “você sabe com quem está falando”, de maneira poética.

Cortella deixa evidenciado a ínfima condição existencial daqueles que almejam ser previamente reconhecidos por “quem são”, diante da numerosa população mundial, de um planeta pequeno inserido dentro de um vasto universo. E quando lhe fazem a pergunta, ele responde se a pessoa tem tempo para ouvir a resposta.

O que ele quis dizer com isso é que, no final, somos todos iguais. Na pequenez de nosso universo, ao morrermos, vamos para a mesma vala comum. Então, de que adianta a soberba diante de nossa fragilidade? Fica a questão.

Raquel Santana

Já foi jornalista, acha que é fotógrafa, mas nesses tempos de Covid-19 ela só quer sombra e água fresca no aconchego do seu lar. Vendo seriados, óbvio!

Foto: Aleksandr Burzinskij no Pexels

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