Raquel Santana (*)
Ele era dono de uma pedreira e meu vizinho na Casa Verde, minha república em Londrina. Não lembro bem como a amizade se deu, durou pouco, mas o suficiente para ficar na lembrança. Ele era alcoólatra, mancava de uma perna e era rico, muito rico. Ali, na sombria Sergipe, morava sozinho, mas tinha uma colaboradora doméstica que não viu com bons olhos a amizade daquela jovem com o patrão.
Achou que eu estava atrás de um “sugar daddy”, o que não era o caso. Mal sabia ela que, na real, ele estava era de olho no meu amigo. É, minha gente, o armário é real na vida de uma certa geração que, com medo, casou, teve filhos, separou. E como resultado desse combo desenvolveu depressão e alcoolismo.
Meu suposto “suggar daddy” era um solitário. E por ele tive o pior sentimento que se possa ter de alguém: pena. Para quem não sabe, “suggar daddy “ é uma expressão usada para designar um homem mais velho que sustenta alguém mais novo. Não precisa ter, necessariamente, sexo envolvido. Realmente não era o nosso caso. Gostava de conversar com ele. E como boa repórter que sou, o que me moveu foi a curiosidade.
Fui conhecer a pedreira e lá, vi que além de solitário, aquele homem era cercado pela destruição. Que dó saber que aquela montanha de pedras viria abaixo. A perna foi acidente de trabalho, numa explosão. Sentia dores cruciantes e andava ancorado por uma bengala. Nunca vi um filho, um neto, um primo, nada, ninguém, nenhuma visita. Só a empregada , que mandava e desmandava em tudo.
Um dia, ele me convidou para conhecer a pedreira, pois tinha muita curiosidade. E lá vivi uma experiência punk. Ao chegarmos lá, já ao descer do carro, levei um susto ao perceber que o porta-malas estava carregado de explosivos. Sim, andei quilômetros em estrada de terra com uma bomba no carro. E para completar, na hora da explosão , ele queria que eu baixasse a chave do detonador. Recusei, claro. Por sorte a explosão foi longe, mas não esqueço o estrondo.
Ao voltar para casa, me dei conta da situação: o homem bebia, tinha uma deficiência e foi dirigindo um carro cheio de dinamite. Era um combo suicida. Meu “suggar daddy” era um perigo. Melhor ficar longe dele. Nossa amizade foi mais curta do que um pavio.
(*) Jornalista radicada em Curitiba mas apaixonada por Londrina.
Foto: Pixabay

