Cassiano Russo, professor de Filosofia
– Eu sou tolerante – diz um dos amigos.
– Justo você, Paulo? – questiona João espantado.
– Sim, sou muito tolerante. Na verdade, sou um verdadeiro democrata! – sentencia Paulo.
– Explique-me melhor como é essa sua “tolerância” – pede o amigo.
– Veja bem, meu caro João, é o seguinte: Basta que não pisem no meu calo que eu não incomodo ninguém.
– Mas você vive xingando todo mundo por aí! – contesta João.
– Ah, só faço isso com essa gente imbecil, esse gado humano, bando de Maria vai com as outras, essa gente xexelenta – tenta se justificar Paulo.
– E você ainda se julga um democrata! – ironiza o amigo.
– Sou sim! Gosto de todos, menos da ralé! – afirma com convicção o democrata.
– Você é elitista, Paulo.
– Elitista eu?
– Sim!
– E o mais curioso é que você mora numa periferia barra pesada, longe pra caramba do centro. Você é obrigado a pegar trem, depois metrô e ônibus, pra chegar ao centro de São Paulo.
– E daí? A gente não é livre pra escolher? Pois escolhi não gostar de dessa gente fedorenta! – brada Paulo, levantando o dedo indicador.
Ao redor, um monte de bêbados comendo espetinho num boteco de esquina, com esgoto ao lado correndo a céu aberto.
– Você não é da elite, Paulo.
– Calado, seu lixo socialista!
– Não sou socialista, você sabe disso…
Paulo começa a soltar guinchos ininteligíveis, até que se ouve a seguinte declaração:
– Aqui é tradição, família e propriedade!!!
João, vendo que o horário do almoço terminava, e que não havia mais tempo a perder com o desgraçado do Paulo, calça as botinas para voltar para o trabalho de servente de pedreiro na construção.
E Paulo, coitado, perdido em seu delírio elitista, se levanta, arruma seu macacão de mecânico, e volta à oficina, com o resto da marmita azeda numa sacolinha plástica.
Pobre Paulo.
Sem tradição, família e propriedade.
FIM.
