Por Cassiano Russo, professor de Filosofia
Um padre e um homem desesperado conversam em um banco de igreja.
– Meu bom padre, vim hoje a este templo porque não aguento mais!
– O que se passa consigo, meu filho?
– Não tenho mais fé.
– Explique-se – diz o padre.
– Eu cresci dentro do catolicismo, mas, com o passar do tempo, comecei a duvidar da autoridade divina, até chegar ao ponto em que eu me encontro hoje, sem a proteção do Senhor. Não duvido da existência de Deus, o que eu não aceito é ser Seu servo.
– Então você é um ateu?
– Não! – exclama o homem – Vivo numa espécie de anarquismo metafísico. E sofro muito por isso. Tenho diálogos intermináveis com o Senhor, porém me nego a aceitar que ele tenha alguma primazia sobre minha existência.
– Mas se você reconhece a existência de Deus, por que não crê Nele? – questiona o padre.
– Porque eu não vivo na graça – lamenta-se o homem.
– Pobre homem! Não posso imaginar sua desgraça! – afirma o padre, com sua voz mansa e firme.
– Você já leu um livro chamado Os Irmãos Karamázov?
– Sim, meu bom padre, li Dostoiévski, mas não posso admitir a recusa do bilhete e, no entanto, também não consigo aceitar que inocentes sofram para alcançar o Paraíso!
– Pois esse é o preço da salvação. O homem tem de sofrer para merecer o reino dos céus!
– Não suporto esse sofrimento, padre.
– Meu jovem, só há um caminho para que você se recupere: você tem que sofrer, levar essa sua angústia até as últimas consequências. No final você há de rezar e reencontrar a fé perdida. Será uma reza de torturado, porém você há de chegar lá.
– Talvez o senhor tenha razão – sentencia o homem, que dá de costas para o sacerdote e se retira da igreja sem dar mais atenção para a conversa.
Ambos já estavam no outro mundo quando esse diálogo ocorrera.
FIM.
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