Raquel Santana (*)
Quando se é jovem, a gente é capaz de qualquer loucura. No meu caso, devo dizer que a idade não fez a menor diferença. Mas digamos que, no período universitário, era mais inconsequente e cara de pau com algumas coisas que vou relatar a seguir.
Tive um amigo – digo tive porque ele não está mais aqui – que era o capricho em pessoa. Daqueles que transformavam lixo em luxo. Além do mais, adorava uma planta e tinha o que a gente chama de dedo verde. Pois bem, virava e mexia lá estava ele agarrado numa samambaia que “achou” em algum lugar. Um dia ele achou a solução definitiva para ter a casa sempre florida: o cemitério municipal. Era só passar, recolher uns buquês e a decoração estava garantida. Não sem antes pedir e rezar para o proprietário das flores, claro.
Outro truque que viramos especialista era garantir uma refeição decente na semana. Mas o método não tinha nada de decente, confesso. Na república, no geral, a dieta do fim do mês era composta de arroz, ovo e massa de tomate. Tudo junto e misturado. De vez em quando, rolava um feijão e um franguinho pra garantir a proteína da semana. Em casa, até hoje não posso reclamar do cardápio que a família me lembra dessa época. E de vez em quando ainda faço o que chamávamos de “gororoba” e me delicio. Com um pouquinho de margarina, é dos deuses. É confort food que chama?
Mas em pelo menos um dia da semana, geralmente aos sábados, a gente dava um jeito de garantir uma rango melhor. Só precisava ter cara de pau. Vestidos na beca, chegávamos na igreja matriz depois da cerimônia iniciada. Na hora dos votos era prestar atenção no nome dos noivos e depois entrar na fila de cumprimento. A noiva achava que éramos convidados do noivo, e vice-versa. Depois era só partir festa, geralmente de carona com alguém. Sim, a gente ia de penetra em casamentos.
Passado um tempo, descobrimos que o lance era ir direto nos bufês. Muito mais fácil. Principalmente depois da festa iniciada. Era só chegar, se misturar aos convidados já devidamente alegres, e se divertir. De vez em quando ainda levávamos uns brigadeiros para casa. Na madrugada, matou muita larica da turma. Não me julguem, na época a grana era curta. Aliás, achar as coisas na rua e levar para casa, era corriqueiro.
Certa vez, achamos uma pilastra de concreto, muito, muito, pesada. Atravessamos a Rua Paranaguá a pé, da Humaitá até a Tupi, debaixo de sol, carregando a tal pilastra. No terraço, em cima da garagem de casa, ela serviu de banquinho pra muita madrugada londrinense, ao som de um violão. Foi nesse mesmo terraço que um amigo instalou um telescópio para ver o Cometa Harley, em 1988. E foi nele que passei as madrugadas mais poéticas da minha vida, com meu primeiro amor. Qualquer dia conto essa história.
(*) É jornalista radicada em Curitiba mas apaixonada por Londrina
Foto: Acervo Pessoal

