Por Cassiano Russo, professor de filosofia
Quem se leva demasiado a sério ainda não compreendeu quão precária é sua situação. Os homens não passam de minúsculas formigas que vivem a construir sua morada num lugar que não lhes pertence, com suas vidas tão frágeis quanto uma colher de plástico: leve e descartável, dessas que compramos com uma marmita e depois jogamos fora. E tudo o que consideramos sagrado nada mais é do que um minuto a mais do silêncio de uma eternidade que é indiferente aos nossos gritos e chamamentos. No entanto, muitos vivem como se fossem deuses e esquecem que os deuses também morrem. Nada é perene neste átimo de alegria e dor. E até as ditas divindades, que há muito reinam neste mundo, tombam com os homens, para nunca mais voltar, olvidadas pela secura das gerações vindouras, que também terão os seus ídolos esquecidos. Eis como as coisas funcionam.
Mas um dia este planeta também não mais existirá. E nossa presença no universo terá sido tão marcante quanto o mutismo que nos cala em nossas visitas aos túmulos: uma eloquente solidão dos que sabem, mas não querem saber e, por isso, abaixam suas cabeças diante do horror do vazio, porque sua finitude é certa, e seus pensamentos, infinitos, estão muito além da frieza dessa verdade. E apesar desse futuro desolador – de cuja certeza só possuímos uma leve impressão – ainda vivemos como heróis a nos enfrentarmos diariamente e a nos debatermos contra o inevitável, como velas que se consomem à meia-noite, quando tudo é escuridão e trevas, e não nos resta mais nada do que uma prece para um santo qualquer.
Em cada esquina da cidade, a perambular sem essa consciência nítida de sua efemeridade, seres miúdos de visão baça realizam suas tarefas, que são vigiadas por alguém ignorado que registra cada banalidade, cada ato da mais pura vaidade, como se os olhos desse observador tivessem a propriedade da ubiquidade, porque todos os movimentos são perpassados por sua visão sombria e apocalíptica, que agarra cada alma para seu alimento, o devorador metafísico, tão concreto e cotidiano, presente entre as gentes, conduz suas observações ao desespero em seu autoconhecimento grafado em papel, do qual muitos procuram fugir pelo entorpecimento – por não suportarem se olhar no espelho – servido pelo anjo caído que também conhece o veneno que aos ensandecidos é servido na palma da mão, como pássaros a comer alpiste servido por seus donos.
O desconhecido apenas observa. E se cala. E toma nota de todas as miuçalhas dos pobres enervados, doentes, cansados, enlouquecidos, ele convive com pacientes de um manicômio a céu aberto e dessa situação escanifrada e moribunda ele cria, mimetiza, dá à luz opaca de tal circo a sua presença com cores mais vibrantes, lisérgicas, mas sempre quieto, insuspeito, em algum banco de praça, templo religioso, ou botequim, no seu convívio com os desencantados que vivem sem ter um motivo ou um porquê, que sempre estão alucinados em mais um parque de diversões do pânico, presos em um quarto de látegos que, misteriosamente, lhes ferem a carne sem um executor, porque as ferramentas infernais têm vida própria na escuridão do desconhecimento.
Mas ninguém tem conhecimento desses acontecimentos, exceto o que observa e toma nota do que vê enquanto flana pela urbe universal desconhecida, em órbitas elípticas, tal qual nosso sistema solar, que cumpre o seu dever, porém nada registra, porque nada observa da desgraça humana que o viajor que escreve e descreve assinala e assina. Apreciador de seres minúsculos, em sua labuta, é ele que enxerga e registra retratos variados de um único fenômeno em diferentes ângulos, em suas esquinas, com seu lápis criador de realidades que, no deserto de um formigueiro noturno, dá existência à máquina de fazer sonhos mediante a escrita, pois, fora dela, tudo é cinzento como o céu do inverno, neste mundo indiferente aos nossos caprichos.
Pois enquanto existe alguma forma de vida na imensidão do cosmos, o tomador de notas se move de um canto a outro do globo, visita diferentes povos e constata a falta de paz entre os homens. Assim a ubiquidade é inoxerável em seu julgamento, que nada perdoa dos homens sem lhes trespassar a espada de sua verve, que confere às impressões registradas um momento literário à vida.
Eis a vida transfigurada, transcrita. Quando cada louco encontra sua cura, e os anjos caídos voltam ao seu lugar numa crônica maluca, numa fantasia escrita para curar a melancolia.
FIM.
Foto: Ave Calvar Martinez no Pexels
