Escrever, Tomar Café e Pensar

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Por Cassiano Russo, professor de filosofia

Tudo é vapor que se esvai. Nada resta senão o calor que os dias de dezembro nos deixam na alma abafada. Nesses tempos de sol forte, de noites calorentas, sonho com minha própria Sibéria, para compensar esse clima sobrenatural em que me encontro, clima de enxofre, sem praias, ou piscinas, pois minha casa é simples como os dias quentes a transbordar lavas vulcânicas de minhas observações. Ermitão da cidade grande, não sei viver outra vida, porque esta minha febre que é viver é minha temperatura para a escrita, para a criação de sentido no calor das palavras de uma crônica, como exata medida da temperatura desses nossos dias de veraneio – veraneio à brasileira, ou antessala do inferno, porque o calor que nos queima o pensamento talvez seja um presságio do nosso destino: queimar e queimar até as nossas pálpebras se derreterem no vapor de dias de fogueira, quando escrevemos na brasa nossa história com ventiladores que soltam ar quente – o ar de nossa razão que queima nosso sono em madrugadas tórridas de humanos que sofrem – porque todos pensamos demais, ou de menos.

E, talvez, o pensamento seja sempre uma fornalha a queimar lenha, talvez o homem não possa viver sem essa sua fornalha, talvez a vida seja um grande forno, no qual todos nós ardemos, tal qual o calor desta época do ano, com as praias tomadas por turistas que desejam ficar queimados – abrasar as ideias parece ser essencial para nós, pobres humanos.

Por isso afirmo que viver é como fazer café: é preciso saber esquentar a água, medir nossas colheres, para não nos queimarmos no cotidiano.

Porém eu vejo os tolos derrubarem suas canecas de ignorância, como se seus cérebros já tivessem sido derretidos pelo calor de banhos quentes em dias de calor extremo. Eles afirmam bobagens inacreditáveis, citam autores que nunca leram direito, escrevem mal, e ainda fazem pose de homens esclarecidos e bem-sucedidos.

Muitos querem escrever como se bebessem água gelada no calor – escrever para matar a sede –  mas o que fazem não é mais do que beberagem para vomitórios.

E, nesse clima que me queima a escrita e os sonhos, convivo com essas xícaras de café frio, que não emanam o calor do café, mas o vapor da borra de uma escrita tão ruim quanto chá de boldo.

Ah, esses inteligentinhos! Eu não os suporto!

Com seus narizes empinados, eles não fazem mais do que desfilar suas veleidades intelectualoides numa espécie de evento da cafonice e da indigência intelectual. Tive colegas que se comportavam de tal maneira na época da graduação e do mestrado.

Abri mão dos meus diplomas para não ser como eles, para não escrever pedantismos por detrás de títulos acadêmicos. Sim, renego meus títulos de licenciado e mestre em filosofia, pois nada tenho a ensinar, senão a ocupação dos desocupados, a ocupação de ser cronista.

Sim, escrevo crônicas e faço café. Isso é tudo o que realmente sei nesta minha vida: cuspir labaredas de fogo, beber café muito quente e transcrever essas ações no papel. No mais, sinto o calor do meu próprio mês de dezembro – o meu mês de dezembro, não o dos outros! – que agora está nesta crônica.

O que eu quero é escrever. Só isso.

De resto, o que vejo é o transbordamento do copo de plástico, o excesso, a vontade de aparecer e de brilhar, nesta época em que tudo envolve credenciais e competência.

Pois bem, não quero chamar a atenção de ninguém. Não tenho credenciais – queimei meus diplomas – e não sou competente, porque não quero ser competente!

Minha única ocupação é ser cronista, é estar suficientemente desocupado para poder marcar no texto as coisas para as quais a maioria não dá bola. E não me sinto especial por isso, não vejo razão para que as pessoas sejam obrigadas a ler as minhas crônicas!

Quero escrever e tomar café em minha Sibéria em fornalhas, pois há sempre algo muito gelado no ato de pensar, e não importa quanto calor faça.

Escrever, tomar café e pensar.

Mais nada.

Foto: Pixabay

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