Em país de analfabetos, quem lê um livro é rei

40bfc894-8315-4d61-b6ae-e087b0974165

Como já repeti aqui varias vezes, vim de uma família pobre de grana, mas rica em cultura. Minha mãe, apesar de não ter feito um curso superior, era uma mulher culta e descolada, dentro de seu universo. Não teve uma semana que ela não lesse um livro. Almoçava, arrumava a cozinha, pegava os óculos e o livro da vez, e ia ler na varanda. Chegou a fazer ficha na biblioteca. Então, a criança que fui cresceu com bons exemplos. E como a tendência são os hábitos se repetirem, minha filha é uma leitora voraz.

Ela aprendeu a ler de fato, com três anos. Todos os dias, antes de dormir, como sempre, rolava uma história. Algumas eu lia, outras eu inventava. Entre as que eu inventava, tinha a do gato Bororó, que saiu de uma aldeia no Brasil e foi conhecer o mundo. A cada noite era um país diferente. Aproveitava para contar a história daquele determinado lugar.

A primeira vez que ela fez um tipo de leitura (simbólica) foi aos 1,5 anos, em uma viagem de carona com amigos. Infelizmente, ou felizmente, dependendo do ponto de vista, ela leu um outdoor capitalista e sem nem falar direito, ela disse: olha mamãe, Coca-Cola.

Isso foi um estímulo para começarmos a ler livros e gibis. E a paixão por leitura chegou definitivamente com uma assinatura da Folha de São Paulo, que brindava com outra da Turma da Mônica. Foi numa noite antes de dormir, que lendo uma estória do Chico Bento que me dei conta que eu começava e ela terminava as palavras. Daí começamos a ler juntas até ela ler sozinha. Até hoje são nossos gibis prediletos.

Em meu tempo, as coisas começavam mais tarde. No pré a gente só brincava. O máximo de estímulo gráfico que recebíamos era na aula de desenho e pintura. Fui alfabetizada – veja a ironia – pela minha professora Teresa, mesmo nome da minha menina. E lembro direitinho quando juntei as letras e o parágrafo acabou fazendo sentido.

Em um país que ainda possui analfabetos, quem sabe ler é rei. Certa vez fiz uma reportagem sobre o assunto e entrevistei uma manicure que havia feito o Eja – Ensino para Jovens e Adultos – e ia se formar junto com a filha. Para ela, a maior dificuldade era pegar um ônibus. E ter que se informar qual era a linha, perguntando para alguém no ponto ou para o próprio motorista. Também não saber contar um troco ou ler a bula de um remédio era muito humilhante para ela. Mas com o incentivo da família foi lá e se formou. O próximo passo era fazer uma faculdade. Ela escreveu, de próprio punho e depois replicamos, a manchete da página. Foi lindo.

No Brasil, a taxa de analfabetização foi divulgada pelo IBGE em junho de 2019 na última Pesquisa por Amostra de Domicílios Contínua. O Brasil tem pelo menos 11,3 milhões de pessoas com mais de 15 anos analfabetas (6,8% de analfabetismo). No mundo, mais de 750 milhões permanecem nessa situação. É muito triste saber que todo esse contingente não tem acesso ao ensino.

Também existe o analfabetismo funcional. Nele, a pessoa até sabe ler e escrever, mas é incapaz de entender ou interpretar um texto. Para o IBGE, a taxa de analfabetismo funcional é a porcentagem de pessoas de uma determinada faixa etária que tem escolaridade de até 3 anos de estudo em relação ao total de pessoas na mesma faixa etária. Há uma outra medição, criada pela ONG Ação Educativa, o Índice Nacional de Analfabetismo Funcional (Inaf), feita em parceria com o Ibope. O Inaf 2018 apontou que cerca de 30% dos brasileiros entre 15 e 64 anos são analfabetos funcionais.

Em um país em que o ministro da educação, entre outros membros do governo, escreve errado, acho difícil zerar os números. O Brasil só ganha da Guiana quando comparado os índices na América do Sul. Penúltimo lugar. A Argentina, país vizinho ao nosso, tem a população mais alfabetizada das Américas, com 99%. Primeiríssimo lugar. Apenas 1% dos Argentinos não sabem ler. Bem que o Brasil podia disputar esse tipo de rixa com nossos hermanos, em vez de ficar discutindo futebol, não é mesmo? Seria um baita gol de placa!

Raquel Santana

Já foi jornalista, acha que é fotógrafa, mas nesses tempos de Covid-19 ela só quer sombra e água fresca no aconchego do seu lar. Vendo seriados, óbvio!

Foto: Acervo pessoal

Compartilhe:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Anuncie no O Londrinēnse

Mais lidos da semana

Anuncie no O Londrinēnse