Por Cassiano Russo, professor de filosofia
Existe muita gente por aí que escreve mal. Gente que se destaca – e bota destaque nisso! – em seu ofício de dizer bobagens mal escritas, mal pensadas, mal citadas e o diabo! Com textos publicados nos mais variados formatos, elas são respeitadas neste mundinho da escrita. Gente que não sabe construir uma frase enxuta, sem excessos, que necessita de jargões popularescos para emitir um juízo de valor sobre as coisas mais banais da vida. E são chamadas disto ou daquilo, conforme seus diplomas universitários, como se papéis-moedas – os malditos diplomas! – garantissem conhecimento, traquejo numa determinada atividade! Acontece, contudo, que o escritor não precisa de diploma, até porque não existe um curso formal de como tornar-se escritor. Escrever é algo que se aprende na lida das palavras, pois não faz sentido – embora eu já tenha visto à venda! – um manual de como escrever. É óbvio que essas minhas afirmações são do campo da crônica. Para se escrever receita de bolo os manuais funcionam muito bem. Minha escrita, porém, não é uma receita, não possui uma fórmula – e eu não estou disposto a me vender aos caprichos dos vendedores de livros sobre como escrever livros! Não pratico autoajuda travestida de erudição, ou cultura, porque sou ignorante. Um ignorante que escreve. E com o agravante de vagabundagem, já que eu não trabalho.
Esse negócio de ser desocupado, de não se vender, de criticar os coleguinhas de escrita cultuados é até bonitinho. Parece que eu sou uma espécie de rebelde das letras, o anti-herói necessário contra o status quo da escrita! Que bonitinho, não é mesmo? Mas eu não sou nada disso! Escrevo porque sou desocupado mesmo, não porque sou anti-herói. Minhas críticas são dirigidas, sim, aos que se vendem, aos que querem aparecer. Eu, pelo contrário, quero tanto aparecer que não aceito o título de professor de filosofia, pois, na prática, não sou professor de nada! Vivo à custa do meu pai, nunca trabalhei e gosto de escrever para ocupar o meu tempo! Só isso!
Se vocês repararem bem nas minhas crônicas, a maioria é sobre o ato de escrever crônicas. Acho que tenho fixação por isso. Quase todas têm como título algo de escrita, ato de escrever crônicas e sei lá mais o quê! Eu poderia escrever sobre filosofia? Sim, poderia, mas não me realizaria nesse mister, porque, antes da filosofia, o que vem na minha vida são as palavras, que devem ser bem colocadas no papel – defendo essa minha postura com unhas e dentes! Além do mais, não sou esclarecido para escrever sobre filosofia, nem para lecionar filosofia. Por isso, sou apenas o Cassiano Russo, cronista, não o professor de filosofia!
Sou desocupado, sou cronista. Considero essa definição muito sedutora: o cronista como desocupado, alguém com tempo livre para se ocupar em meter o bedelho no que vê de ruim em matéria de escrita.
E existe muita gente que escreve mal com destaque no mundo literário e jornalístico – o que não é o caso dos bons jornalistas, pois eles também são bons escritores.
E se tenho a oportunidade de escrever, devo isso a Telma Elorza – jornalista muito competente e que escreve bem! – que me ofereceu um espaço para meus escritos em O Londrinense.
Confesso, porém, que não sei se escrevo direito, se não sou mais um daqueles que escrevem mal – o Caio César Malassise Luiz – esse sim professor de filosofia! – amigo meu, diz que sim, que eu escrevo bem e eu confio no que ele afirma, afinal, ele é um homem inteligente – o que não significa que eu não o critique, duvide de suas afirmações e até brigue com ele, mas são catorze anos de amizade, e o Caio é um cara bacana – eu que sou o chato!
Não, eu não suporto certos textos com excessos de palavras, com muitos verbos auxiliares, com gerúndios que parecem não acabar mais. Sou exigente com a arte de ser enxuto: dizer somente o necessário, ainda que isso seja dito numa crônica comprida. É, esta crônica está meio comprida – e prolixa – mas é que o meu ódio pelos foliculários é tão grande, sinto tanta raiva de ver esses caras em destaque, que necessito de algumas palavras a mais para externar o meu desagrado, e talvez até certa descrença, com o futuro da escrita – imagino um futuro não muito distante com escritores de quinta categoria que venderão livros como água. O que pretendo deixar registrado é que há um processo de empobrecimento nesta época de celulares e pouca leitura – essas minhas palavras são categóricas, enquanto eu faço da escrita, mais especificamente da crônica, uma espécie de sacerdócio, pois preciso pelo menos salvar-me de mim mesmo, e meus escritos são essa tábua de salvação em meio ao oceano do obscurantismo de periodistas militantes – eu não milito na política, mas no universo das palavras.
Minha política está na crônica.
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