Londrina: a capital do matagal

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Por Ana Paula Barcellos

Londrina acordou e descobriu que virou matagal. Nos últimos dias, não se fala de outra coisa. No Uber, no balcão da padaria, no meio do show do Tom Zé que rolou por aqui — o assunto é um só: o mato alto. Canteiros viraram capinzal, praças parecem cenário de filme pós-apocalíptico, e até no centro, que sempre teve aquele trato VIP de limpeza diária, o verde invade sem pedir licença. Alguém apelidou o prefeito de “prefeito matagal”. Pegou. Viralizou. E, olha, não é injustiça.

Matagal na periferia era comum…

Eu mesma não me lembro de ter visto o centro assim. Sempre foi o lugar da ilusão: calçadas mais limpas, flores podadas, aquele ar de “cidade que se cuida”. Enquanto isso, nos bairros da zona leste — onde morei por alguns anos —, o matagal era rotina. Mato batendo na batata da perna pra atravessar a rua. Tinha que trocar chinelo por tênis, senão voltava pra casa arranhada e com picão de brinde. Reclamar? Adiantava nada. A roçagem vinha quando queria, ou melhor, quando dava na telha de alguém lá em cima. No verão, com calor do cão e surto de dengue batendo na porta, o mato ficava lá, rindo da gente.

E o centro se assusta

Londrina virou oficialmente um matagal. As pessoas dos bairros até estão acostumadas com o descaso, mas agora o Centro descobre o que é o desleixo da administração pública
Imagens geradas por IA

Agora o centro entrou na dança. E o povo se assusta. “Como assim o centro tá assim?” Pois é. Em outras partes da cidade, isso sempre foi muito normal. A diferença é que a administração atual, passado o Natal, nem finge mais. Parou até de dar migué. Nem roçada simbólica, nem poda de emergência. A cidade está abandonada — e deve continuar assim até o fim do mandato. Ficou nítido: o foco é arrecadar. Criar cargos, esticar salários, engordar bolsos particulares. O resto? O povo que se vire. E no meio do matagal.

Ana Paula Barcellos

É graduada em História pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), Mestre em Estudos Literários, integra coletivos culturais da cidade e é agente cultural.

Sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências, e escreve também a coluna de Moda deste jornal. Siga o Instagram @yopaulab

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