Por Edra Moraes
A Lei Municipal nº 14.061/2025, que trata do Carnaval 2026 de Londrina, foi a pauta da semana no Fórum de Cultura. Em tese, não deveria ser um problema, ela representa exatamente o que o setor cultural demanda: alternativas de financiamento que ampliem as possibilidades de realização de eventos de grande porte. Então por que se tornou o centro de uma polêmica que expõe feridas antigas na relação entre poder público e classe artística?
A resposta está menos no conteúdo da lei e mais no processo que a conduziu até aqui.

O instrumento e suas intenções
Aprovada em 18 de dezembro de 2025, a legislação regulamenta o edital de chamamento público para patrocínio do Carnaval de Londrina 2026. O mecanismo é claro: empresas, organizações privadas e até pessoas físicas podem apoiar financeiramente o evento por meio de aporte direto ou permuta de serviços essenciais, como: palco, som, iluminação, cachês, segurança, infraestrutura. Sem limite de patrocinadores, desde que respeitada a regra de um por segmento econômico.
Do ponto de vista técnico, o instrumento é defensável. Orçamentos públicos não comportam, sozinhos, a complexidade de manifestações culturais de massa. Ampliar fontes de financiamento não é apenas desejável é necessário. E esta não é uma lógica exclusiva da cultura: integra uma estratégia municipal mais ampla de parcerias e patrocínios.
A questão central, portanto, não é o que foi feito, mas como foi feito.
A urgência que sufoca o debate

O edital foi lançado com prazo extremamente curto, criando a percepção de que tudo aconteceu “a toque de caixa”. Essa velocidade gerou ruídos, insegurança e, principalmente, a sensação de exclusão daqueles que, historicamente, constroem o Carnaval da cidade.
Segundo informações da própria Secretaria de Cultura, o instrumento vem sendo estudado desde maio de 2025, inspirado no modelo do Verão Maior Paraná, em funcionamento desde 2023. O problema? A lei só foi aprovada em dezembro, comprimindo todo o calendário e forçando uma aplicação imediata.
A estratégia adotada foi lançar o edital assumindo que esta primeira edição funcionará como pré-teste, uma prática comum em gestão e marketing, onde se busca identificar falhas rapidamente para corrigi-las antes que se consolidem. Tecnicamente, faz sentido. Politicamente, é arriscado.
As garantias e os valores em Jogo
É preciso registrar: segundo o secretário de Cultura, Marcão Kareca, haverá Carnaval. Há R$ 150 mil já reservados pelo município para garantir a realização do evento. O edital de patrocínio não substitui o investimento público, mas busca ampliá-lo.
As cotas de patrocínio indicam investimento mínimo de R$ 30 mil, com contrapartidas de visibilidade institucional. Os valores são negociados conforme cada proposta e avaliados por uma Comissão Especial. A prioridade recai sobre propostas de permuta por serviços, reduzindo custos diretos. Mas no edital não há muita clareza sobre que tipo de propostas devem embasar as ofertas de patrocínio.
Nada disso, porém, resolve o déficit fundamental: faltou diálogo com a classe cultural no momento mais decisivo.
O que está verdadeiramente em disputa nesse Carnaval?
Quando uma política pública altera a forma de financiamento, organização e execução de uma manifestação cultural tão simbólica quanto o Carnaval, a escuta não pode ser tratada como etapa opcional. Ela precisa ser parte estruturante do processo.
Não se trata de resistência à mudança ou apego a modelos ultrapassados. Trata-se de reconhecer que políticas culturais bem-sucedidas nascem da articulação entre gestão pública e conhecimento acumulado por quem produz cultura no território.
A urgência administrativa não pode, sistematicamente, atropelar a construção coletiva. Quando isso acontece, mesmo instrumentos tecnicamente corretos perdem legitimidade. E, em políticas públicas, legitimidade é tão importante quanto legalidade.
Uma discussão que precisa continuar
Este texto não é um veredito. É uma abertura.
Se você identifica equívocos, riscos ou oportunidades; se tem informações que não circularam; se concorda ou discorda, participe.
Políticas públicas melhores não nascem do silêncio, mas do debate qualificado e da disposição genuína para o diálogo.
O Carnaval é festa, cultura, economia e identidade. Tudo isso merece mais do que pressa. Merece tempo, transparência e participação efetiva.
A questão que fica é: estamos dispostos a construir esse caminho juntos, ou continuaremos repetindo o ciclo de urgências que sufocam o debate necessário?
Conheça a lei A Lei Municipal nº 14.061/2025
Foto principal: Emerson Dias/N.Com
Edra Moraes

Profissional de marketing, produtora cultural e escritora. Agitadora cultural e idealizadora do Movimento Londrina Criativa. Prêmios: Obras Literárias Digitais 2020, “Antologia Poética | Seleção da Autora, Memorial Vivência, Literatura, Livro e Leitura Unespar, Cultura nas Redes 2020 e FCC Digital 2020.
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