Por Telma Elorza
“Sou tia de dois garotos de 07 e 05 anos, filhos únicos dos meus dois irmãos mais velhos, e estou com um grande dilema. Enquanto o menino mais velho é bem educado, gentil e atencioso, meu sobrinho mais novo é uma peste mimada. Adoro os dois, mas me irrito muito com a complacência da minha cunhada e do meu irmão com a criação do filho, que está se tornando insuportável. Como tia, devo me meter na (má) educação que eles estão dando? Isso vem me irritando há tempos, mas a gota d’água foi o escândalo que o menino fez no aniversário do meu sobrinho mais velho, querendo os presentes que ele ganhou e aprontando muito – sem controle dos pais. Até o parabéns que ele estragou. Até que ponto nós, meus pais e eu, podemos nos meter?”
Amiga, que situação. Eu entendo perfeitamente o que você e seus pais estão passando. Já vivi situação parecida, há muito tempo. Mas não sei se minha forma de agir foi a melhor, na época.
Ser tia é uma delícia. Podemos amar, mimar, brincar, aconselhar e criar laços profundos com nossos sobrinhos, sem carregar a responsabilidade da criação de um filho. Aquela coisa de “Chorou? Toma que o filho é teu”, kkk.
Mas existe esse lado, que é bem complicado, ao assistir comportamentos que nos incomodam e não sabemos direito até onde podemos interferir. E é uma situação para lá de comum. Principalmente hoje em dia, com tanta gente na internet, onde muita gente confunde educação positiva com deixar a criança fazer tudo o que quer. E como reagir – e corrigir – uma criança mimada pelos pais?
A situação que vivi foi um pouco diferente. A criança não era mimada, mas era arteira no último grau, se pendurava no lustre se a gente deixasse, vivia ariscando a própria vida e os pais eram apáticos quanto a isso. Até que um dia, na minha casa, vi esse sobrinho subindo na minha estante enorme e sobrecarregada de livros, enquanto os pais conversavam como se nada estivesse acontecendo na sua frente.
Se a estante não aguentasse o peso extra e caísse, iria matar o menino. Tirei-o de lá, dei dois tapas na bunda dele e mandei sentar num canto de castigo, sem poder sair para nada. E não deixei mesmo sair até a hora de ir embora. Todo mundo ficou chocado com minha atitude. Mas nunca mais esse menino se arriscou perto de mim e se comportava que era uma beleza. Me dei por satisfeita. Mas acho que hoje seria massacrada por meu gesto kkk.
No seu caso, você vê dois sobrinhos crescendo em ambientes familiares diferentes, um sendo bem-educado respeitando regras. O outro, sem controle nenhum. É difícil dizer até que ponto você e seus pais podem se meter, assim, sem conhecer profundamente o caso. Por isso, fui pesquisar orientações da psicologia e pediatra para passar, sem apelar para meu lado mais “bateu, levou”, kkk.
De acordo com minhas pesquisa, aprendi que é importante separar duas coisas: o comportamento da criança e como os pais lidam com ele. Crianças na idade do seu sobrinho ainda estão aprendendo a controlar emoções, lidar com frustrações e compreender limites. Segundo a Academia Americana de Pediatria (AAP), acessos de raiva, choros intensos e explosões emocionais fazem parte do desenvolvimento infantil, especialmente nos primeiros anos de vida. Porém, isso não significa que toda atitude deva ser aceita sem orientação ou consequência.
A psicóloga Diana Baumrind, uma das maiores referências mundiais em estilos parentais, identificou que crianças tendem a se desenvolver melhor quando recebem afeto acompanhado de limites claros. Já o estilo permissivo, caracterizado por muito acolhimento e pouca exigência, pode dificultar o aprendizado da autorregulação emocional e do respeito às regras sociais. Diversos estudos, posteriores ao de Diana, encontraram associação entre a educação excessivamente permissiva e comportamentos impulsivos com a dificuldade de aceitar frustrações e problemas de autocontrole emocionais em adultos.
Porém, uma coisa precisa ficar clara. Embora você esteja certa em suas observações, a criança não é sua filha. Você é apenas tia. E é esse ponto que costuma gerar conflitos familiares. Quando alguém da família tenta assumir o papel que é dos pais, raramente o resultado é positivo, de acordo com estudos psicológicos.
Os pais tendem a se sentirem julgados, atacados e desautorizados. E as crianças recebem mensagens contraditórias. Então, devemos ficar quietos diante de todos os absurdos? Não. Existem diferenças entre educar e invadir.
Se a criança estiver na sua casa, como aconteceu comigo, por exemplo, você tem todo o direito de estabelecer regras (não precisa dar os tapas na bunda como eu fiz, ok?). Você pode dizer que ali não se grita, não se quebra objetos, não se pendura no lustre, não pega brinquedos das outras crianças e não se desrespeitam as pessoas. Limites não são exclusividade dos pais, fazem parte da convivência social. E se a criança não respeitar, você pode convidar ela e seus pais a se retirarem da sua casa. Sim, vai ficar um climão, mas é bom para todos entenderem que ali não é um território sem lei.
Seus pais podem tomar a mesma atitude. Eles podem reforçar valores, oferecer exemplos de respeito e estabelecer regras na própria casa. Mas nunca tentar substituir os pais ou travar disputas pela autoridade, mesmo sendo os pais do pai.
Tias e avós só podem dar exemplos
Outra coisa: pelo que entendi das pesquisas que fiz, convocar reunião familiar para discutir a educação da criança – uma das ideias que deve ter passado por sua cabeça de tia, assim como passou pela minha – não vai servir para nada, além dos pais ficarem irritados e agressivos. Mesmo quando a crítica é justa, dificilmente ela será bem recebida. Uma alternativa é conversar apenas se surgir uma oportunidade genuína. Algo como “nossa, eu percebi que ele ficou muito frustrado na festa; vocês estão preocupados com isso também”? Em vez de acusar, você está dando material para reflexão.
Uma coisa que você precisa entender – e, como tia, já deve ter notado – é que ninguém enxerga o filho com total imparcialidade. Os defeitos dele causados pela má educação podem passar batidos. Pais cansados, sobrecarregados ou inseguros geralmente cedem para evitar conflitos. Nem sempre isso acontece por negligência, mas é muito mais fácil dizer sim que não. E, para quem está exausto, o sim sempre vai sair mais rápido.
Que tal então se oferecer para cuidar da criança de vez em quando? Tipo um passeio tia-sobrinho, com atividades que ele goste. Deixando claro, é obvio, que ela vai ter que seguir suas regras no período que estiver com você. Parece pouca coisa, mas uma tarde ou uma noite – de vez em quando ou até regularmente – cuidando do sobrinho pode dar um respiro aos pais e criar mais laços com seu sobrinho, o que pode refletir beneficamente lá na frente.
Sua preocupação, me parece, que não é porque o menino incomodou na festa, mas com o adulto que ele poderá se tornar se nunca aprender que o mundo não gira a seu redor. Você pode influenciar seu sobrinho, servir de exemplo e impor limites quando estiver sob seus cuidados. E oferecer muito afeto.
O papel da tia e dos avós não é assumir a direção da educação da criança, é estar presente, oferecer referência diferente de respeito, responsabilidade e bom senso. As crianças observam tudo e aprendem com os adultos – não só com os pais. E talvez essa seja a chance que vocês terão de influenciar um pouco o comportamento do menino.
Espero ter ajudado.
Tem dúvidas sobre relacionamentos? Mande um e-mail para telma@olondrinense.com.br

Quem é a Tia Telma
Telma Elorza é jornalista, divorciada e adora dar pitaco na vida dos outros. Mas sempre com autorização.
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