Por Telma Elorza
“Eu sei que você deve receber muitos e-mails e nem espero que responda, mas preciso falar isso com alguém. Tenho 17 anos e meus pais querem que eu viva protegida, dentro de casa. Eu vivo uma vida bem restritiva, não tenho permissão de sair sem eles, a não ser para ir para escola, e nem amigos posso trazer em casa. Isso afasta todos de mim e acabo sendo isolada pelos colegas. Eu reclamo muito, mas parece que meus pais não escutam nada do que digo. Eles sempre justificam que é para ‘minha proteção’ e que eu deveria dar valor a isso. Eu só queria ser uma garota normal e poder sair e passear com meus amigos. O que posso fazer para mudar a situação?”
Caraca, guria, que pais mais controladores, heim? Não é à toa que você está revoltada. Eu também ficaria.
Adolescentes que têm famílias rígidas acabam sempre ouvindo que estão errados, exagerando ou sendo ingratos, que gera muita revolta justificada. E você não está pedindo muito, apenas uma vida normal de adolescente, com amigos, passeios, festas ou simplesmente receber colegas em casa. Brigar por isso não faz de você alguém ruim.
A preocupação dos seus pais com sua proteção me parece exagerada. Tá, é responsabilidade dos pais proteger os filhos. A legislação brasileira inclusive estabelece que os pais têm o dever de orientar, educar e zelar pela segurança dos filhos menores de idade. Mas isso não quer dizer que eles possam isolar você do mundo.
O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) reconhece adolescentes como sujeitos de direitos. Entre esses direitos, estão a convivência comunitária, o desenvolvimento social, a participação na vida cultural e a construção gradual da autonomia.
Isso significa que a lei entende que adolescentes precisam de proteção e orientação, mas também precisam aprender a viver no mundo. Quando um jovem é impedido de construir amizades, participar de atividades sociais ou desenvolver sua independência de forma compatível com sua idade, podem surgir consequências emocionais importantes como solidão, ansiedade, baixa autoestima e dificuldades futuras de relacionamento.
Mas calma lá. Antes de sair acusando seus pais ao Conselho Tutelar, é preciso analisar algumas coisas. Por exemplo, nem toda família rígida é abusiva.
Às vezes, seus pais cresceram em ambientes inseguros, sofreram perdas ou têm medo exagerado dos perigos atuais. E eles acreditam que estão fazendo o melhor para os filhos. O problema é que excesso de proteção também é problema.
Uma das primeiras coisas que você pode fazer é mudar a forma que conversa com eles. Em vez de discutir em momentos de conflito, tente escolher um momento calmo para apresentar propostas (não reclamações).
Por exemplo, “posso sair para ir ao cinema com meus amigos e mandar mensagem quando chegar lá e quando estiver voltando”? Ou “posso chamar a Fulana para estudar aqui, dia tal, em tal hora”? E ainda “podemos combinar regras para eu poder sair com meus amigos, prometo que cumpro todas”. Pais controladores costumam reagir melhor a acordos concretos do que a pedidos genéricos por mais liberdade.
Outra estratégia importante é buscar aliados adultos confiáveis como tios e avós, uma madrinha ou até um professor que podem ajudar a intermediar o diálogo. Pais reagem melhor e com mais atenção quando outro adulto apresenta a mesma preocupação que você. Você sempre vai ser a menininha deles.
Também vale lembrar que você tem 17 anos. Em termos legais, você está bem próxima da maioridade legal. Isso significa que sua situação atual pode mudar logo.
Aproveite esse período que falta para fortalecer sua independência. Invista nos estudos – até técnicos, por exemplo – , planeje uma profissão, aprenda sobre finanças e construa uma rede de apoio. Quanto mais preparada você estiver para a vida adulta, mais condições terá de fazer suas próprias escolhas.
Proteção excessiva ou abuso?
Agora, tem um detalhe importante e que não pode ser deixado de lado. Se as restrições impostas por seus pais vierem acompanhadas de humilhações, violência psicológica, ameaças, agressões físicas ou qualquer forma de abuso, a história muda de figura.
Nesse caso, eu sugiro que busque a orientadora da escola e exponha sua situação. Busque também o Conselho Tutelar, o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) ou o Ministério Público, que vão lhe dar suporte.
Mas isso é só se houver esses tipos de abusos. Pelo que você descreve, não me parece que seus pais estejam cometendo algo do tipo. Parece a mim, pelo menos, que eles têm medo do mundo. E num certo sentido, eu entendo muito bem eles, porque o mundo está mesmo violento.
Meu conselho é: não transforme seus pais em inimigos. Mostre, com atitudes, responsabilidade e maturidade que, se o mundo não é confiável, você é. A liberdade que você deseja é legitima e ela está próxima. Você está tentando crescer e seus pais ainda não viram isso, por isso esse excesso de proteção.
Espero ter ajudado.
Tem dúvidas sobre relacionamentos? Mande um e-mail para telma@olondrinense.com.br

Quem é a Tia Telma
Telma Elorza é jornalista, divorciada e adora dar pitaco na vida dos outros. Mas sempre com autorização.
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