Por Telma Elorza
“Estou com um cara há dois anos, nos gostamos muito e ele é sempre carinhoso comigo. No entanto, ele não me assume. Nunca me apresentou à família nem aos amigos. Nem nas festas da família ele me leva. Já passei Natais sem ele porque diz que ainda não é o momento de me apresentar. Sou bonita, tenho um bom emprego e não sei porque ele faz isso. Sei que não tem outra, nem é casado, coisa que já desconfiei e investiguei. Porém me magoa ele não me aceitar publicamente. O que posso fazer para reverter isso?”
Dois anos de namoro. Vinte e quatro meses. Setecentos e trinta dias. Parece bastante tempo para um relacionamento se consolidar, criar raízes, e se apresentar ao mundo com alguma dignidade. Mas não é isso que está acontecendo com você. Depois de dois anos, ele ainda a esconde da família, dos amigos, dos círculos sociais que importam na vida dele. Você existe só na sombra, no sigilo, na parte da vida dele que ninguém pode ver. E você me pergunta o que fazer para reverter isso?
Pois minha resposta é direta: pare de se perguntar o que fazer para ser aceita, e comece a se perguntar por que você está aceitando isso.
É muito comum romantizarmos o “homem reservado”, o “tímido”, aquele que “não gosta de se expor”. Mas existe uma enorme diferença entre ser discreto e ser omisso. Não se trata de forçar uma exposição pública forçada ou transformá-lo em um influenciador de casal no Instagram. Se trata do básico: reconhecimento. Respeito. Compromisso. E principalmente, coerência emocional.
Quando um homem escolhe esconder a parceira, ele está comunicando algo. E sim, o silêncio comunica. O sumiço nas festas, o “não quero misturar as coisas”, o “não é o momento de apresentá-la” são frases que escondem uma verdade incômoda: ele não está priorizando-a. E talvez nunca váfazer isso.
Muita gente diz que “cada um tem seu tempo”, mas dois anos é tempo mais do que suficiente para alguém decidir se quer tê-la na vida de verdade ou só nos bastidores. A verdade é que quem ama com maturidade quer ver a pessoa que ama participando da vida real – aquela com irmãos, amigos, aniversários, churrascos de domingo e até tias fofoqueiras. Porque amor que se esconde, que é deixado do lado de fora, que vive de restos e horários alternativos, não é amor inteiro. É um arranjo conveniente para quem não quer abrir mão da própria zona de conforto.
Ele não a assume e a culpa é de quem?
E aqui vem a parte mais dura, mas também mais libertadora: isso não é culpa sua. Não importa o quanto você se esforce, seja compreensiva, paciente, “boa namorada”. Você pode ser incrível, e ainda assim, ele pode continuar lhe tratando como uma opção. Porque o problema não é você. É ele que não está pronto para oferecer o mínimo que um relacionamento saudável precisa: visibilidade e reconhecimento.
E não se engane: quando ele a esconde, ele a invalida. Ele reforça a ideia de que você não é digna de ser apresentada, de pertencer, de ser parte da vida dele como um todo. Isso vai corroendo a autoestima em doses homeopáticas. Você começa a achar que tem que fazer mais, ceder mais, esperar mais. Até que um dia, acorda perdida, insegura, sem saber nem mais o que merece.
Mas você merece. Merece ser chamada pelo nome, e não por eufemismos, como “anjo”, “amor”, “princesa” (Deus me livre). Merece um lugar à mesa, no sofá da sala da mãe dele, no grupo de amigos, no álbum de fotos do churrasco. Merece presença, clareza e verdade. E se ele não pode (ou não quer) lhe dar isso depois de dois anos, o que a faz pensar que ele vai mudar daqui a três?
Você não está sendo impaciente. Está sendo lúcida. Está percebendo o que já deveria ter sido dito com todas as letras: ele já respondeu. Com cada ausência, cada desculpa, cada convite que não veio.
Agora, a pergunta que importa não é mais sobre ele. É sobre você:
Você vai continuar aceitando ser sombra na vida de alguém, quando nasceu para brilhar inteira?
Porque no fim das contas, amar também é saber a hora de partir. E se ele não a assume, talvez seja hora de você assumir a si mesma – e ir embora. Por que aceitar migalhas emocionais não é amor – é autoabandono.
E agora, o que fazer com essa dor? Alguns lembretes para sua autoestima:
- Você é suficiente. Não precisa ser mais magra, mais divertida, mais compreensiva ou “menos intensa” para alguém a querer de verdade. Quem a ama, a vê por inteiro.
- Amor não é sacrifício contínuo. É parceria, troca, leveza. Se amar exige que você se diminua, algo está muito errado.
- Coloque-se no centro da própria vida. Faça coisas que lhe fazem bem. Reencontre amigas, invista no que a faz feliz fora do relacionamento. Lembre-se: seu valor não está nas mãos de ninguém.
- Dizer “não aceito menos” não é arrogância. É autocuidado. Ter limites é amar a si mesma o bastante para não aceitar um papel menor do que você merece.
- E por fim: você vai superar. Dói agora, mas toda vez que você escolhe a si mesma, você se aproxima de uma vida mais leve e mais justa.
Porque a verdade é: tem coisa melhor do que ser assumida, desejada e respeitada? Tem sim.
É se assumir. Se desejar. E se respeitar primeiro.
Espero ter ajudado.
Tem dúvidas sobre relacionamentos? Mande um e-mail para telma@olondrinense.com.br

Quem é a Tia Telma
Telma Elorza é jornalista, divorciada e adora dar pitaco na vida dos outros. Mas sempre com autorização.
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