Por Telma Elorza
“Tenho 18 anos e estou em dúvida com minha sexualidade. Gosto de meninas e de meninos, acho que sinto atração pelos dois. Como posso saber com certeza? “
Meu querido, vamos começar pelo mais importante. Sentir atração por meninos e meninas não é um problema a ser resolvido. É apenas uma das possibilidades da sexualidade humana. E você não precisa correr para definir por quem sente atração. Você tem todo o direito de descobrir o que sente no seu próprio tempo.
Aos 18 anos, você ainda está percebendo coisas sobre si mesmo e quer entender melhor seus sentimentos. Você está apenas começando a se conhecer e esse processo não vem com manual de instruções e você não precisa fazer nenhum teste de múltipla escolha para definir sua sexualidade.
Ou seja, você não precisa dessa certeza agora.
Mas, para ajuda-lo a entender melhor, vou explicar algumas coisas bem didaticamente, ok?
A ciência reconhece que a orientação sexual envolve atrações emocionais, românticas e sexuais. A Associação Americana de Psicologia (APA) explica que essas atrações podem se manifestar de diferentes maneiras e que algumas pessoas como heterossexuais, outras como gays e lésbicas, outras como bissexuais e outras ainda como pansexuais (pessoas que sentem atração por pessoas, independentemente do sexo ou da identidade de gênero delas).
A bissexualidade pode ser uma possibilidade que faça sentido para você. Mas não cabe a mim, nem a qualquer outra pessoa, determinar isso. Essa descoberta pertence única e exclusivamente a você, ok?
Não existe teste ou determinação capaz de dizer se alguém é bissexual, gay ou hetero com base em apenas uma resposta, um sonho ou uma única experiência sexual. Uma pessoa pode até reconhecer sua orientação sexual mesmo sem ter tido relações sexuais.
Sentir atração, experimentar uma relação e definir a própria identidade são coisas relacionadas, mas atenção: não são a mesma coisa.
Você também não precisa sentir a mesma intensidade de atração pelos dois gêneros, para se definir. Uma pessoa bissexual pode sentir mais atração por homens em determinada fase da vida e mais por mulheres em outra. A sexualidade não é uma balança que precisa ficar perfeitamente alinhada.
Sexualidade sem rótulos
Estar confuso é perfeitamente natural na sua idade. Você ainda está descobrindo o mundo, construindo sua autonomia como adulto. É natural ter dúvidas sobre tudo, inclusive.
Por isso, vou dar alguns conselhos, mas que também não são guias determinantes, ok?
Procure observar o que sente, sem se pressionar. Quando se interessar por alguém, por exemplo, pergunte-se se quer apenas a amizade ou sente atração física. Tem vontade de beijá-la, consegue imaginar tendo um relacionamento amoroso (não apenas sexo) com ela? Isso pode ajudá-lo a compreender seus sentimentos.
Outra coisa importante: não confunda curiosidade com obrigação. ‘Ah, tive uma relação sexual com um homem, então sou gay e tenho que gostar só de homens”. Nada disso. Você pode experimentar tudo, sem se cobrar. O mais importante é respeitar seus desejos, os seus limites – e os das outras pessoas – e seu próprio ritmo.
Uma terceira dica é desconfiar de quem quer colocar rótulos em você ou tentar mudar sua orientação sexual. Sim, vai ter gente que vai querer que você se defina agora (inclusive dentro da comunidade LGBTQIAPN+) e quem vai tentar mudar seu pensamento e sua liberdade de escolha. Entenda, você não precisa ser “definido” nem consertado.
E sim, você vai ter medo de não ser aceito. E isso é uma das partes mais difíceis de todo o processo de autoconhecimento. Às vezes, as dúvidas aparecem não apenas do que sentimos, mas do medo do que a família vai pensar, se os amigos vão fazer piadas, se vai aceito pelo que é.
Pesquisas na área de saúde mental mostram que o preconceito e a rejeição podem prejudicar o bem-estar das pessoas e sua autoaceitação. Por isso, você não tem obrigação de contar a ninguém antes de se sentir preparado.
Se decidir conversar com alguém, escolha alguém em quem confie e respeite sua privacidade. Ou, se sentir medo e estiver sofrendo muito com essas dúvidas, procure um psicólogo que trabalhe com respeito à diversidade sexual. Isso pode ajudar, sem tentar induzi-lo a uma identidade predeterminada.
E, por favor, não se cobre demais. Dê tempo ao tempo, experimente tudo que puder, tome suas decisões sozinho. O importante é que você não se negue nem o que sente, porque tem medo de não se encaixar. Você não precisa ter todas as respostas sobre a vida. Não nessa momento, nem talvez nunca. Tem muito marmanjo com mais de 50 anos que ainda não entendeu os próprios relacionamentos.
Vá com calma e permita-se viver sem rótulos.
Espero ter ajudado.
Tem dúvidas sobre relacionamentos? Mande um e-mail para telma@olondrinense.com.br

Quem é a Tia Telma
Telma Elorza é jornalista, divorciada e adora dar pitaco na vida dos outros. Mas sempre com autorização.
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