Por Fernando Peres
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 apresenta um retrato preocupante sobre o avanço dos crimes cibernéticos no país. Os dados mostram que o ambiente digital deixou de ser apenas um meio complementar para a prática de delitos e passou a ocupar posição central na criminalidade patrimonial, na exploração de crianças e adolescentes e na atuação de grupos organizados.
Em 2025, o Brasil registrou 346.753 ocorrências de estelionato por meio eletrônico, crescimento de 20,6% em relação ao ano anterior. Considerando todas as modalidades de estelionato, foram contabilizados mais de 2,26 milhões de registros, consolidando os golpes como um dos principais problemas de segurança pública da atualidade.
A dimensão real do fenômeno, no entanto, parece ser muito maior do que aquela revelada pelos boletins de ocorrência. Pesquisa mencionada pelo Anuário estima que cerca de 26,3 milhões de brasileiros tenham sofrido algum golpe ou perdido dinheiro pela internet ou pelo celular no período de um ano. A diferença entre o volume de vítimas estimadas e os registros policiais reforça a existência de forte subnotificação. Muitas pessoas não sabem onde denunciar, acreditam que não haverá investigação ou têm dificuldade para reunir informações sobre contas, números de telefone, perfis, links e transações utilizadas pelos criminosos.
Os números confirmam uma mudança estrutural no perfil dos delitos praticados no Brasil. “Os crimes cibernéticos deixaram de ser condutas isoladas, praticadas por pessoas que dominavam alguma técnica específica. Hoje, estamos diante de estruturas organizadas, com divisão de tarefas, roteiros de abordagem, uso de dados pessoais, contas-laranja, sistemas de pagamento instantâneo e mecanismos de lavagem de dinheiro.
Centros de operações criminosas
O relatório aponta que diversas investigações identificaram verdadeiros centros de operação de crimes. Esses grupos funcionam como empresas clandestinas, com funcionários, metas de arrecadação, premiações por desempenho, equipamentos e métodos padronizados de abordagem. Em um dos casos mencionados pelo Anuário, uma central de golpes operava com aproximadamente 100 funcionários e mais de 400 computadores. Outras investigações encontraram quadros com metas financeiras e bônus calculados de acordo com os valores retirados das vítimas.

Essa organização ajuda a explicar por que modalidades como o golpe do WhatsApp, a falsa central bancária, as fraudes envolvendo Pix, as lojas virtuais falsas e o uso indevido de dados pessoais continuam crescendo. O principal instrumento utilizado, na maioria dos casos, não é uma invasão sofisticada dos sistemas bancários, mas a engenharia social. O criminoso explora medo, urgência, confiança, solidariedade ou expectativa de ganho para induzir a vítima a fornecer senhas, códigos de autenticação, instalar aplicativos, entregar cartões ou realizar transferências.
Esse aspecto precisa ser compreendido pelas autoridades e também pela sociedade. Muitas vítimas acreditam que foram enganadas porque cometeram algum erro simples, mas, na realidade, estão enfrentando grupos treinados para manipular comportamentos. Esses criminosos utilizam informações verdadeiras, reproduzem a linguagem de bancos, empresas e órgãos públicos e criam uma situação de urgência para impedir que a pessoa tenha tempo de refletir.
Outro ponto destacado pelo Anuário é a relação entre o roubo ou furto de celulares e as fraudes digitais. O aparelho não é mais apenas um objeto destinado à revenda. Ele se tornou uma porta de entrada para aplicativos bancários, contas digitais, e-mails, documentos, dados pessoais, mecanismos de recuperação de senha e listas de contatos. A partir do acesso ao aparelho, criminosos podem movimentar valores, assumir contas e aplicar golpes contra familiares, amigos e clientes da vítima.
A rapidez com que o dinheiro é transferido também dificulta a resposta. Em poucos minutos, os valores podem passar por diversas contas, ser divididos entre vários destinatários ou convertidos em outros ativos. A preservação da prova e o bloqueio dos valores precisam acontecer rapidamente. Quando a investigação começa depois que o dinheiro foi pulverizado e as contas já foram abandonadas, as chances de recuperação diminuem de forma significativa.
O Anuário também revela um grande funil entre as ocorrências registradas e a efetiva responsabilização criminal. Em 2025, foram registrados 2.261.055 boletins de ocorrência relacionados a estelionato, mas apenas 63.771 processos penais e 4.819 pessoas presas. Isso significa que pouco mais de 2% dos registros chegaram ao Judiciário naquele período. Embora nem todo boletim resulte necessariamente em denúncia ou condenação, os números demonstram dificuldades de identificação da autoria, obtenção de dados, rastreamento financeiro e integração entre os órgãos responsáveis.
Crianças e adolescentes
As crianças e os adolescentes também aparecem como vítimas especialmente vulneráveis. Em 2025, foram registrados 677 casos de cyberbullying, aumento de 61,4% em relação ao ano anterior. O crescimento deve ser analisado com cuidado, pois também reflete a recente tipificação penal e o aprimoramento dos registros. Ainda assim, o dado demonstra que a violência entre pares acompanha os jovens para além dos espaços físicos e passa a ocorrer de forma contínua nas redes sociais e aplicativos de mensagens.
O relatório contabilizou ainda 4.063 ocorrências relacionadas à produção, posse ou distribuição de material de abuso sexual infantil, crescimento de 25,3%, além de 2.464 registros de aliciamento de crianças. A análise dos microdados mostrou que 84,2% das vítimas eram meninas, 78,3% eram adolescentes e mais de um terço dos registros envolvia adolescentes como autores.
O enfrentamento desses casos não pode ser baseado apenas na punição. É necessário investir em educação digital, formação de professores, orientação às famílias, canais de denúncia acessíveis e mecanismos de proteção incorporados às próprias plataformas. Quando tratamos de crianças e adolescentes, a prevenção precisa começar antes do primeiro contato do agressor.
Criminosos estão utilizando a inteligência artificial
O Anuário também chama atenção para a utilização de inteligência artificial, deepfakes, criptoativos e plataformas digitais por redes transnacionais. Em centros de fraude localizados no exterior, pessoas traficadas são obrigadas a criar identidades falsas e aplicar golpes financeiros em vítimas de diferentes países. O fenômeno conecta tráfico de pessoas, trabalho forçado, fraude digital e lavagem de dinheiro, ampliando a complexidade das investigações.
E a resposta precisa ser integrada. O Brasil precisa superar a atuação fragmentada. Polícias, Ministério Público, instituições financeiras, empresas de telecomunicações e plataformas digitais precisam compartilhar informações e agir em tempo compatível com a velocidade do crime. Não basta orientar a vítima a ter cuidado. É necessário criar sistemas capazes de identificar, bloquear e interromper a fraude.
Os dados do Anuário demonstram que os crimes cibernéticos já representam uma questão central de segurança pública. O desafio não está apenas na criação de novas leis, mas na construção de uma estrutura nacional de prevenção, investigação, preservação de provas, rastreamento financeiro e proteção das vítimas.
Fernando Peres

Advogado especialista em Direito Digital e Crimes Cibernéticos, doutor em Linguística pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), coordenador do Observatório Legal da Inteligência Artificial e do Projeto Segurança na Rede. Site Fernando Peres, Instagram @fernando.peres.adv
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