Ruta 40, o novo sabor ‘argento’ do Mi Casa

milanesa

Duas argentinas assumiram a cozinha do bar, trazendo novos sabores e muita tradição a uma comida deliciosa

Telma Elorza

O LONDRINE̅NSE

Os sabores da Argentina pegaram a estrada e chegaram a Londrina, com a nova cozinha do Mi Casa, o bar/barbearia que já se consolidou como um dos pontos mais alternativos da cidade.  O Ruta 40 traz uma proposta interessante e deliciosa: oferecer pratos da cozinha típica argentina que pouca gente tem contato por aqui. E o Mi Casa entrou no clima argentino com tudo. Um novo mural – enorme- com o rosto de Diego Maradona adorna uma das paredes, além de outros detalhes como o poster de Maradona e Pelé abraçados chamam a atenção para quem souber olhar.

Mas vamos falar de comida. E como eu sempre digo, há comidas gostosas que alimentam e saciam, mas há também aquelas que contam uma história inteira em si. É mais ou menos isso que Milena Zabaleos Onaga e Neyén Chisu, duas argentinas que se conheceram por acaso em Londrina, estão fazendo no Mi Casa. Elas oferecem receitas, temperos e sabores que fazem parte da memória afetiva de ambas e que agora os londrinenses podem provar sem ter que ir à Argentina.

Milena Zabaleos Onaga

O Ruta 40, nome escolhido por Milena e Neyén, não poderia ser mais simbólico. É a famosa rodovia argentina que atravessa o país de Norte a Sul, unindo as histórias das duas. Milena é do Norte, da região de Salta. Neyén nasceu e foi criada na Patagônia, no extremo sul. A rota 40 aproximou os dois extremos e as duas.

Milena vive no Brasil há cerca de 15 anos e já trabalhava no Mi Casa há quase três. Neyém, que é chef formada, passou um ano no Brasil, voltou à Argentina onde ficou mais um ano e há pouco retornou ao Brasil. Milena conheceu a parceira através do pai dela, que também trabalha como chef.  “Quando o Tá Pronto Vegan decidiu mudar de Londrina, eu pensei em assumir a cozinha do Mi Casa. Mas eu não sou cozinheira, embora faça alguns molhos do atual cardápio. Aí lembrei da Neyém”, conta.

Neyén Chisu

Neyém não chegou à gastronomia por acaso. Vinda de uma família de cozinheiros, trabalho em cozinhas na Argentina e fez muitos cursos relacionados à área, incluindo panificação e confeitaria. No Brasil, ela também não perdeu tempo e fez novos cursos, para aprender os fundamentos da cozinha brasileira, além de trabalhar em várias cozinhas de Londrina.

O resultado foi uma mistura interessante de experiências, mas não necessariamente uma mistura de receitas. “A nossa proposta é justamente preservar a identidade argentina. A ideia é proporcionar uma experiência da comida tradicional argentina, sem adaptações que o pessoal costuma fazer para o gosto brasileira”, explica.

Por isso, embora o cardápio tenha carnes e preparações que o londrinense conhece muito bem, como picanha e fraldinha, a intenção é sempre manter os sabores e o modo de preparar os pratos originais daquele país.

As diferenças do sabor argento

E é justamente no tempero que a diferença aparece. Quem está acostumado com uma comida mais suave pode estranhar nos primeiros bocados. Não porque seja salgada – não é – , mas porque o alho, a cebola e muitas ervas, além de outros condimentos, estão ali com uma personalidade forte. Eu adoro! É o tipo de cozinha que não pede licença e chega chegando.

E a gente pode notar isso já nas batatas fritas (R$25 a porção grande). Sim, simples batatas fritas que são temperadas (e não apenas com sal) antes de serem fritas, ao contrário do que estamos acostumados por aqui, onde só adicionamos salzinho depois. As batatas, aliás, são perfeitas: crocantes por fora e macias por dentro, sequinhas e deliciosas.

As empanadas – já cortadas para melhor visualização dos recheios – e seus molhinhos. O laranja é a Salsa Argento para ser aplicada generosamente na empanada saltenha

O chimichurri, por exemplo, que acompanha carnes e o tradicional choripan (já falo sobre ele), é no ponto e tem até uma versão mais picante (que foi a minha preferida). A casa também prepara a própria maionese. Segundo Milena, a ideia é que os molhos não sejam apenas coadjuvantes, mas façam parte dos pratos. Tem até porções de molho à disposição, uma coisa inédita para mim.

Nos destaques, principalmente para quem quer comer uma coisa mais leve, estão as empanadas (preços variam de R$12 a R$14. Elas são as mais pedidas da casa e aparecem com diferentes recheios, incluindo a tradicional saltenha, típica do norte da Argentina, com o recheio de carne picadinha na ponta da faca, não moída; e ainda leva batata. A de frango (pollo) também tem a carne cortada, não desfiada.

Para Neyém, uma das diferenças de suas empanadas é permitir que o ingrediente apareça e não fique escondido pelo tempero. “A ideia é sentir o recheio”. Há também opção vegetariana e uma especial (que podem mudar de acordo com o dia), mas eu provei uma caprese que estava simplesmente divina. Ela leva três queijos, tomate manjericão. Como boa intolerante a lactose, AMEI.

Mas o destaque das empanadas, para mim, foi a massa fininha, quase um guioza assado. Muito bom. Pode provar com a certeza que vai amar.

O choripan – com um sabor extra marcante – e os dois tipos chumichuri

Outro clássico argentino que provei e que merece atenção é o choripan (R$25). O sanduíche simples, feito com linguiça, é daqueles que dizem muito sobre o país. “Na Argentina, o choripan pode ser encontrado facilmente em carrinhos na rua. Ele faz parte do nosso cotidiano”, diz Milena.

Para reproduzir a experiência legítima do choripan em Londrina, as duas fizeram uma extensa pesquisa com fornecedores para encontrar a linguiça que considerassem o mais próximo do que estavam acostumadas em seu país. “Algo que tenha gosto de memória”, explica Neyén. E vou contar: o sabor da linguiça escolhida é marcante, forte, bem mais que estamos acostumados. Pode não agradar todo mundo, mas vale a pena provar. E pra quem não come carne, tem até uma opção de choripan vegano (R$35).

Mas eu queria conhecer também um sanduíche típico da Argentina que ainda não havia provado: o sanduíche de Milanesa (R$35). Pedi um de carne e veio um lanche enorme, com uma carne empanada crocante, tomate, alface, chimichuri e a maionese da casa, que dão a “molhadinha” que o lanche precisa. Achei simplesmente delicioso.

Pensa num sanduíche delicioso? Então, é esse, de milanesa. Um dá para duas pessoas não muito gulosas

O cardápio da Ruta 40 também oferece pratos de carnes grelhadas (fraldinha a R$50 e picanha a R$55) com batatas fritas, chimichuri e maionese da casa; e milanesas de carne (R$32) e de frango (R$28) com fritas e maionese da casa. Também há a variação da milanesa, a Napolitana – que para nós é mais conhecido como parmegiana. A de carne fica R$40 e a de frango, R$36. Também acompanha fritas e maionese. Além disso ainda tem espetinhos. Mas, já satisfeita com as empanadas, o choripan e o sanduíche de milanesa, preferi deixar para conhecer esses pratos na minha próxima visita ao Mi Casa.

Para encerrar, as meninas nos apresentaram também uma sobremesa, a Nevada de Cachi (R$12), que tem uma base de bolo de chocolate umedecido com um pouco de café, doce de leite argentino e um creme tradicional gelado feito com frutas sobre tudo. Neste caso, foi com morangos. Olha, estava delicioso. A combinação de sabores foi bem pensada para que todos tenham destaque e nenhum se sobressaia mais que os outros. As meninas prometeram fazer vários outros tipos de doces argentinos, mas sempre com o preço fixo de R$12.

Ah, há também pratos sazonais. Nos dias frios de inverno, a melhor opção é o “locro”, uma espécie de feijoada argentina que leva vários tipos de carnes, linguiça, feijão branco e alguns legumes. O preparo pode levar quase dois dias.  O locro fez muito sucesso nos dias frios de julho.

Para acompanhar tudo, provamos alguns novos drinques do Mi Casa. Os escolhidos dessa vez foram o Pomelo Paloma (pomelo, tequila, água com gás e limão, R$25), o Carajillo (Licor 43 e café expresso- R$25) e o tradicional Bloody Mary (suco de tomate, vodca Absolut, tabasco e limão – R$27). Destes, só conhecia o Bloody Mary – que é bem gostoso e refrescante, mas não agrada todos os paladares. Eu, pessoalmente, adoro o sabor meio ácido do suco de tomate com vodca e o picante do tabasco. O Pomelo Paloma, apesar da tequila, é bem suave e também refrescante. Mas o campeão da noite foi o Carajillo, que tem um “docinho” perigoso. Você vai bebendo e nem percebe que é alcoólico. Cuidado para não exagerar.

Ainda que o Ruta 40 tenha apenas dois meses com essa proposta gastronômica, eu posso dizer que ali existe uma identidade bem definida. Não se trata de reproduzir pratos típicos. Ali, está a alma “argenta”, como as meninas dizem. Elas contam as próprias histórias nos molhos, nos temperos, nos preparos. Agora, os londrinenses podem aproveitar a verdadeira comida argentina, pertinho de casa.

Fotos: Telma Elorza e Suzi Bońfím

Serviço: O Mi Casa funciona de terça a sábado com a barbearia das 10 às 19 horas e o bar, das 17 às 22 horas.

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