O Brasil é o país do Carnaval malandro ou questionador?

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Se no Brasil o ano começa depois do Carnaval, então já está na hora de voltar com tudo. Eu, particularmente, discordo muito dessa afirmação. Mas, de qualquer forma, é tempo propício para refletirmos sobre essa realidade e acerca das transformações carnavalescas ao longo do tempo. No início, o carnaval (carne vale) era época de deixar de lado o consumo de carne vermelha, uma forma de penitência ou de restrição das vontades e paixões carnais, mundanas.

Aos poucos, a Igreja Católica introduziu a Quaresma, um período de 40 dias que antecede a Páscoa, no qual os cristãos deveriam se resguardar de certos hábitos, certos consumos, certos festejos e outras manifestações de alegria (hoje não é mais assim, como se pode perceber por aí). Por isso, nos dias que antecediam o início da Quaresma, fazia-se festa como nunca antes. Dançavam, cantavam e se entupiam de comida. Pois, afinal, literalmente as pessoas ficariam de quarentena.

A Era Vitorniana, na Inglaterra, ressignificou os festejos carnavalescos, que logo se espalharam pela Europa. A festa se chamava Entrudo, que representava justamente a entrada dos dias quaresmais. De além-mar, os portugueses trouxeram-na para o Brasil. E aqui houve novas adaptações. Não foi de um dia para o outro, claro! Ao longo dos séculos e do enraizamento das influências africanas e indígenas na cultura europeia, o que chamamos de miscigenação, o país tropical foi se apropriando da festa, que hoje é mundialmente conhecida como sendo brasileira.

Dos festejos e marchinhas do início do século passado, com a inversão de papéis entre as classes sociais, passando pela incorporação do samba à musicalidade carnavalesca até chegarmos à criação das agremiações, as famosas escolas de samba. O século XX foi o tempo de institucionalizar a festa que representa o Brasil mundo afora, ao lado do futebol. Mas, sobretudo, de fazer com que percebamos que o Carnaval revela muito mais sobre o brasileiro e sobre nossa sociedade que a gente imagina.

Não apenas o caráter gentil, amável e superficial do brasileiro, apontado por Sérgio Buarque de Holanda, mas o de malandro mesmo, como diria o antropólogo Roberto da Matta, uma realidade arraigada na alma do povo. Enquanto isso, tudo é festa! Embora nesse meio se revelem manifestações questionadoras e reflexivas, principalmente no sentido de evitar que as festas se dissipem como uma cortina de fumaça para esconder as decisões políticas importantes do país.

Foto: Pixabay

Fábio Luporini

Sou jornalista formado pela  Universidade Norte do Paraná e sociólogo formado pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) . Fui repórter, editor e chefe de redação no extinto Jornal de Londrina (JL), atuei como produtor na RPC (afiliada da TV Globo), fundei o também extinto Portal Duo e trabalho como assessor de imprensa e professor de Filosofia, Sociologia, História, Redação e Geopolítica, em Londrina.

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