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É hipocrisia advogar em favor de uma causa da qual não se faz parte?

O ativismo do século XXI tem ganhado contornos de dúvidas, de próprios ativistas, ou de críticos de militâncias. Isso porque muitos que advogam em favor de uma causa nem sempre são ou estão, diretamente, ligados a ela, ou seja, nem sempre fazem parte do grupo de pessoas que vive determinada realidade. Seja em qual área for: brancos que defendem o movimento negro, heterossexuais que militam pelos homossexuais, homens que lutam pelos direitos das mulheres, e por aí vai. Isso, por um acaso, é ser hipócrita?

O conceito de hipocrisia, no pensamento filosófico, é complexo. Embora esteja hoje associado à mentira ou falsidade, é visto como a arte de interpretar um saber da chamada dóxa, neste caso um conjunto de pensamentos e juízos de valor elaborados socialmente em determinado contexto histórico. Tudo isso através do kairós, termo grego que significa o tempo oportuno, e configurado por meio da mímesis, que quer dizer a imitação, a representação, a mímica. Assim, através de todo esse fundamento da hipocrisia, cria-se a si mesmo e a uma obra de si mesmo ou de quaisquer outras realidades vividas no mundo.

Se tomarmos como base o pensamento do filósofo Friederich Nietzsche, compreenderemos a hipocrisia como a arte do engano, a arte do ator. E aí precisaremos ter a compreensão extramoral que diz respeito à práticas enganatórias ou à forja das noções de máscara e interpretação que criam um eu hipócrita, numa perspectiva epistêmica. Daí, aproximamo-nos do conceito nietzschiano de espírito livre, uma compreensão ética-estética que cria a si como obra de arte e se torna o que é.

Portanto, embora realmente muitas pessoas defendam causas as quais elas próprias não agem ou atuam de acordo com o esperado, isso não quer dizer que seja hipocrisia defender causas que não sejam, necessariamente, nosso próprio lugar de fala. Isso porque, apesar de pejorativo, o conceito discutido aqui vai muito mais além do que estamos acostumados a alcunha-lo. Representa a criação e a constituição do próprio ser, inclusive como ator e agente social, protagonista de mudanças sociais importantes.

Exemplo: grandes proprietários de terras na América Latina que lutaram pelo fim da escravização e independência do continente ou importantes homens que atuaram em favor das mulheres, ao longo da história. Não que escravos ou mulheres, respectivamente, não tenham tido papel fundamental nessas lutas. Mas, não apenas. E isso não converte os ativistas em hipócritas, especialmente se levado em conta o termo pejorativo.

Fábio Luporini

Sou jornalista formado pela  Universidade Norte do Paraná e sociólogo formado pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) . Fui repórter, editor e chefe de redação no extinto Jornal de Londrina (JL), atuei como produtor na RPC (afiliada da TV Globo), fundei o também extinto Portal Duo e trabalho como assessor de imprensa e professor de Filosofia, Sociologia, História, Redação e Geopolítica, em Londrina.

Foto: Marta Branco no Pexels

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