Uma Batalha Após a Outra: um filme excelente

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Por Marcelo Minka

Num país em que o discurso político contamina até o jantar em família, Uma Batalha Após a Outra chega como um espelho incômodo: a herança ideológica atravessando gerações, transformando afetos em trincheiras. Estreou nos cinemas da cidade o novo filme de um de meus diretores favoritos, Paul Thomas Anderson (Sangue Negro – 2007).

Anderson é hoje um dos cineastas mais relevantes da nossa geração, marcado por narrativas que exploram obsessões individuais e estruturas de poder, sempre com rigor formal e personagens densos. Filmes como o maravilhoso Magnólia – 1999 e O Mestre – 2012 o colocaram entre os grandes analistas da alma americana, enquanto Licorice Pizza – 2021 mostrou sua versatilidade em tons mais leves. O filme Uma Batalha Após a Outra marca uma guinada política em sua obra, recolocando Anderson no centro do debate contemporâneo ao unir drama íntimo e comentário social em escala mais direta e urgente, tudo que necessitamos agora.

A trama acompanha Bob (Leonardo DiCaprio – O Regresso – 2015), ex-revolucionário que abandonou a luta armada para viver com a filha. O passado, porém, volta na figura do coronel supremacista Steven J. Lockjaw (Sean Penn – Sobre Meninos e Lobos – 2003), que o caça com obsessão. Entre eles, uma mulher (Teyana Taylor – Um Príncipe em Nova York 2 – 2021) se torna pivô de desejo, dúvida e disputa, e paira a questão: quem é o pai da filha dela?

Anderson constrói a narrativa do filme sem anestesia: violência política e drama íntimo se sobrepõem em ritmo que recusa neutralidade. A câmera alterna perseguições brutais, diálogos carregados e silêncios que pesam mais que gritos. O roteiro insiste em mostrar como cada batalha pública se infiltra no privado, até corroer vínculos de sangue.

O filme Uma Batalha Após a Outra chega aos cinemas de Londrina trazendo uma narrativa sem anestesia: violência político e drama íntimo se sobrepõem
Fotos: Divulgação

DiCaprio oferece uma atuação marcada por fragilidade e dureza, oscilando entre culpa e teimosia. Penn encarna um vilão que não é caricatura, mas a personificação de um ressentimento estrutural, frio e convincente. Taylor sustenta a tensão simbólica de uma mulher dividida entre dois homens que carregam, cada um, um país estilhaçado dentro de si. Qualquer semelhança com nossa semana é mera coincidência.

Filme sem metáforas fáceis

O filme acerta ao não se esconder em metáforas fáceis. É explícito, por vezes até excessivo, mas nunca neutro. Se falha, é na falta de respiro: algumas passagens poderiam se aprofundar em silêncio e complexidade psicológica, em vez de sempre recorrer ao confronto direto. Mas talvez Anderson queira justamente isso, um cinema que não nos permita descansar.

Para quem busca catarse confortável, a experiência será dura. Uma Batalha Após a Outra não é espetáculo de entretenimento, e sim ressaca moral. Saímos da sala com perguntas que gritam no cérebro; quando a guerra começa em casa? Quando o ódio ocupa o lugar do diálogo? E o que sobra quando a próxima batalha não é externa, mas íntima? Filme excelente!

Marcelo Minka

Graduado em licenciatura em Artes Visuais, especialista em Mídias Interativas e mestre em Comunicação com concentração em Comunicação Visual. Atua como docente em disciplinas de Artes Visuais, Semiótica Visual, Antropologia Visual e Estética Visual. Cinéfilo nas horas vagas. Me siga no Instagram: @marcelo_minka e @m_minka_jewelry

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