Supergirl e a exaustão dos deuses

Supergirl 2

Por Marcelo Minka

Durante quase vinte anos, Hollywood viveu sob o domínio dos super-heróis. O que começou como uma renovação criativa do cinema popular transformou-se numa linha de montagem de capas, explosões digitais e universos compartilhados. O problema nunca foi a existência dos super-heróis, mas a crença de que eles poderiam substituir todas as outras formas de narrativa.

É nesse contexto que chega Supergirl, dirigido por Craig Gillespie e estrelado por Milly Alcock. O filme carrega uma responsabilidade que vai além de suas qualidades individuais: convencer o público de que ainda há algo a ser descoberto nesse gênero que parece ter contado a mesma história dezenas de vezes.

Felizmente, Supergirl entende algo que muitos de seus antecessores esqueceram. Não basta salvar o mundo; é preciso encontrar alguém que mereça ser salvo. A personagem interpretada por Alcock surge menos como uma versão feminina do Superman e mais como uma figura marcada pelo deslocamento, pela perda e pela tentativa de construir uma identidade própria à sombra de um mito maior que ela.

O acerto do filme está justamente em reduzir a escala emocional para ampliar a dimensão humana. Em vez de apostar apenas em batalhas cósmicas e ameaças apocalípticas, a narrativa encontra força nos momentos em que sua protagonista se revela vulnerável. Há uma melancolia discreta atravessando o filme que o diferencia de boa parte da produção recente da DC e da Marvel.

Isso não significa que a obra esteja livre dos vícios contemporâneos. Ainda existem sequências de ação excessivamente dependentes de computação gráfica e momentos que parecem obedecer mais às exigências da franquia do que às necessidades da história. São resquícios de uma indústria que continua tratando personagens como propriedades intelectuais antes de tratá-los como personagens.

Supergirl e o fim de um ciclo

O aspecto mais interessante de Supergirl é outro. O filme parece reconhecer que estamos vivendo o fim de um ciclo. O público já não vai ao cinema apenas porque há um uniforme colorido na tela. A promessa de um universo compartilhado perdeu parte de seu encanto. Depois de centenas de horas de conteúdo derivado de quadrinhos, a simples existência de um super-herói deixou de ser relevante, e vejo isso como uma boa notícia.

Os westerns sobreviveram quando deixaram de ser apenas histórias de cowboys. Os filmes noir sobreviveram quando começaram a questionar suas próprias convenções. Talvez os super-heróis também sobrevivam, mas apenas se aceitarem abandonar a condição de produto automático e voltarem a ser personagens.

Supergirl não reinventa o gênero. Tampouco inaugura uma nova era do cinema. Mas demonstra que ainda existe vida sob a capa esvoaçante

Fotos: divulgação

Marcelo Minka

Mestre em Antropologia Visual (UEL), dá forma à linguagem estética da Angatu Joias, unindo arte, forma e símbolo em criações que revelam a poética entre design e significado. Artista visual e pesquisador, transita entre o pensamento e o fazer, inspirado pelas viagens, pelos sabores, pela natureza e pelas culturas que encontra pelo Brasil e pelo mundo. Cinéfilo nas horas vagas.

Me siga no Instagram: @studio6minka

Leia todas as colunas de Cinema

(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente, a opinião do O LONDRINE̅NSE

Compartilhe:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Anuncie no O Londrinēnse

Mais lidos da semana

Anuncie no O Londrinēnse