Por Marcelo Minka
Há uma idade da vida em que o tempo deixa de ser calendário e passa a nos assombrar. Não porque tudo esteja perdido, mas porque cada gesto carrega uma espécie de inventário silencioso: aquilo que ficou, aquilo que não foi dito, aquilo que ainda insiste em reaparecer. Perto do Sol é Mais Claro, dirigido por Regis Faria (Cabocla, 2004), entra nesse território delicado ao acompanhar Regi, um engenheiro de 85 anos que tenta seguir depois da morte da esposa.
Reginaldo Faria (Pra Frente, Brasil, 1982), que também carrega no rosto e na voz uma longa memória do cinema e da televisão brasileira, é a escolha natural e ao mesmo tempo perigosa para esse papel. Natural porque sua imagem pública já traz a espessura de muitas décadas. Perigosa porque o filme poderia se apoiar demais nessa reverência. O melhor de Perto do Sol é Mais Claro acontece quando a câmera permite que o ator simplesmente exista em cena, sem sublinhar demais o que ele sente. Há uma força particular em rostos envelhecidos quando o cinema não tenta suavizá-los nem transformá-los em emblema de sabedoria. A velhice não precisa ser heroica, mas habitável.
Perto do Sol é Mais Claro se constrói a partir de uma pergunta simples, mas incômoda: o que resta de uma pessoa quando a rotina compartilhada desaparece? A morte de uma companheira não tira apenas alguém do mundo; ela reorganiza a casa, os horários, os objetos, os silêncios. Uma cadeira vazia pode ter mais peso dramático do que uma grande cena de choro. Quando confia no cotidiano, o filme encontra sua melhor matéria.
A presença de Marcelo Faria (Celebridade, 2003) ao lado de Reginaldo Faria em Perto do Sol é Mais Claro acrescenta uma camada de leitura. Mesmo que o espectador tente se manter apenas dentro da ficção, há algo de transmissão familiar, de continuidade artística e de espelho geracional atravessando a tela. Vannessa Gerbelli (Mulheres Apaixonadas, 2003) também pertence a essa tradição de intérpretes brasileiros capazes de trabalhar afetos reconhecíveis sem necessariamente reduzi-los à obviedade.

Perto do sol tem mais exposição
O título é bonito porque sugere uma contradição: quanto mais perto do sol, mais clara a vida, mas também mais intensa a exposição. Essa imagem serve bem a um filme sobre alguém que, depois de tanto viver, já não tem tempo para grandes disfarces. A morte, nesse caso, não é apenas ausência, mas uma claridade brutal. Ela obriga o personagem a olhar para si sem a proteção da rotina conjugal que o sustentava.
Se Perto do Sol é Mais Claro tem fragilidades, elas aparecem quando tenta organizar demais a emoção para o espectador. Dramas de luto precisam resistir à tentação da frase bonita, da música conduzindo o sentimento, da cena desenhada para comover. O material já é forte. Não precisa ser empurrado. A grandeza possível de Perto do Sol é Mais Claro está menos no acontecimento e mais na permanência: um homem, uma casa, uma ausência, uma vida que ainda não terminou.
Num momento em que o cinema comercial parece cada vez mais dependente de velocidade, franquias e estímulos fáceis, há algo contracultural em acompanhar uma história sobre envelhecer, perder e continuar. Isto é, talvez, um dos temas centrais de qualquer arte adulta. Porque todos, de algum modo, estamos caminhando para essa zona em que o passado cresce e o futuro encolhe. O que fazemos com esse intervalo define boa parte da nossa dignidade.
Marcelo Minka

Mestre em Antropologia Visual (UEL), dá forma à linguagem estética da Angatu Joias, unindo arte, forma e símbolo em criações que revelam a poética entre design e significado. Artista visual e pesquisador, transita entre o pensamento e o fazer, inspirado pelas viagens, pelos sabores, pela natureza e pelas culturas que encontra pelo Brasil e pelo mundo. Cinéfilo nas horas vagas.
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