Por Marcelo Minka
Há artistas que parecem grandes demais para caber numa cinebiografia. Michael Jackson é um deles. Não apenas pela extensão da carreira, que atravessa infância, televisão, música negra americana, indústria fonográfica, dança, videoclipe e cultura pop global. O problema é outro. Sua imagem pública virou um campo minado, feito de fascínio, trauma, mercadoria, genialidade e desconforto. Michael, dirigido por Antoine Fuqua (Dia de Treinamento, 2001), entra nesse território com a missão quase impossível de transformar um labirinto em filme popular.
O longa sabe onde está sua principal força: Jaafar Jackson, sobrinho do cantor, no papel de Michael. A escolha tem algo de inevitável e também de inquietante. Jaafar não interpreta apenas uma celebridade conhecida. Ele carrega no próprio corpo uma herança familiar, física e simbólica. Quando dança, o filme cresce. Quando recria gestos que já pertencem ao imaginário coletivo, a plateia reconhece antes de raciocinar. É uma atuação menos construída por grandes explosões dramáticas e mais pela precisão corporal. Um movimento de ombro, uma inclinação de cabeça, uma pausa antes do passo. Tudo parece coreografado pela memória.
O melhor de Michael está justamente na observação desse artista em fabricação. O menino do Jackson Five, moldado por talento, disciplina e exigência brutal, vai aos poucos se tornando o adulto que parecia dominar luz, som, câmera e multidão. Colman Domingo (Rustin, 2023), como Joe Jackson, dá peso ao núcleo familiar sem reduzir o pai a um vilão simples. Nia Long (O Homem da Casa, 2013), como Katherine Jackson, aparece com uma presença mais discreta, mas importante. O filme precisa dessa zona de silêncio para não virar apenas uma máquina de grandes momentos.

Quem está contando a história de Michael?
Ainda assim, toda cinebiografia autorizada chega acompanhada de uma pergunta incômoda: quem está contando esta história? E, principalmente, o que essa versão prefere não encarar? Michael tem brilho, música, recriações luxuosas e cenas pensadas para emocionar uma plateia que já entra no cinema carregando alguma memória afetiva. Em vários momentos, funciona. Mas também se percebe uma prudência calculada. O filme toca na solidão, na pressão e na fabricação do mito, mas recua quando a figura pública exigiria mais atrito. Não se trata de transformar cinema em tribunal. Trata-se de não confundir homenagem com simplificação.
Miles Teller (Whiplash, 2014), como John Branca, ajuda a lembrar que Michael Jackson também foi uma empresa. Uma marca. Um patrimônio. Uma engrenagem econômica gigantesca. Essa talvez seja uma das camadas mais interessantes do filme, porque por trás do gênio que parecia flutuar no palco havia contratos, controle de imagem, disputa de poder e preservação de legado. O longa percebe isso. O problema é que nem sempre leva essa percepção até o fim.
Como espetáculo, porém, Michael funciona. E é provavelmente assim que encontrará seu público. Não como biografia definitiva, porque nenhuma obra honesta poderia prometer isso, mas como uma grande vitrine emocional sobre o preço de se tornar inesquecível. O filme é melhor quando deixa escapar que o ídolo, antes de ser monumento, foi corpo treinado, criança observada, adulto isolado e produto de uma indústria que ama seus gênios quase tanto quanto os consome.
Marcelo Minka

Mestre em Antropologia Visual (UEL), dá forma à linguagem estética da Angatu Joias, unindo arte, forma e símbolo em criações que revelam a poética entre design e significado. Artista visual e pesquisador, transita entre o pensamento e o fazer, inspirado pelas viagens, pelos sabores, pela natureza e pelas culturas que encontra pelo Brasil e pelo mundo. Cinéfilo nas horas vagas.
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