Por Marcelo Minka
Agosto mostrando para que veio, quem diria que vários membros daquela querida família brasileira, os Faria Limers, fazem parte do PCC? Nunca imaginei. E já que toquei no tema, vamos falar de um ótimo filme que estreou nesta semana na cidade, LADRÕES. O diretor Darren Aronofsky (Cisne Negro, 2010) nunca foi um cineasta interessado na superfície. Seu cinema mergulha nas fissuras do humano, expondo obsessões, vícios e loucuras com uma intensidade que costuma deixar o público dividido entre raiva e desconforto, do tipo Câmara dos Deputados da nossa querida Brasília.
Em Ladrões, ele adapta o romance de Charlie Huston (Caught Stealing, 2004) com a mesma voracidade, mas aqui se entrega a um thriller urbano que parece nascer do asfalto quente de Nova York, impregnado de suor, álcool e violência gratuita.
O protagonista, vivido por Austin Butler (Elvis, 2022), é um ex-jogador de beisebol decadente que hoje trabalha como bartender, arrastando-se pela vida até ser arrastado, quase por acaso, para uma trama de gangues, policiais corruptos e vizinhos perigosos, como nós, brasileiros. O ponto de partida beira o absurdo: aceitar cuidar de um gato. É nessa chave banal que se abre um inferno pessoal. Aronofsky transforma a lógica do cotidiano em detonador de pesadelos — um talento que já demonstrara em Réquiem para um Sonho (2000).
O elenco de Ladrões é um banquete. Zoë Kravitz (Batman, 2022) surge como figura magnética e ambígua, oscilando entre aliada e ameaça. Regina King (Se a Rua Beale Falasse, 2018) injeta autoridade e cinismo numa policial que carrega sua própria agenda. Vincent D’Onofrio (Nascido para Matar, 1987) e Matt Smith (Doctor Who, 2010) compõem uma dupla de irmãos psicopatas que parecem saídos de uma fábula distorcida dos Coen. Até Bad Bunny (Cassandro, 2023), que poderia ser mero chamariz de bilheteria, mostra timing para a brutalidade caricatural que o filme exige.
Ladrões entre o pulp e uma certa fragilidade

Se o romance de Huston já tinha sabor pulp, Aronofsky amplifica isso com sua mise-en-scène febril. Câmera nervosa, cortes abruptos e uma paleta cromática que alterna o neon e a sujeira compõem um retrato de Nova York como selva descontrolada, onde todos devoram todos. É cinema que respira no limite, uma espécie de ópera da degradação.
Mas há também fragilidade, em Ladrões. O roteiro, assinado pelo próprio Huston (Joe Pitt Casebooks, 2005), às vezes se enreda em subtramas que soam mais como acúmulo do que como progressão dramática. A sensação é que Aronofsky gosta tanto de cada personagem grotesco que se perde em deixá-los brilhar, mesmo quando a narrativa pede foco. Butler segura o centro com carisma e vulnerabilidade, mas até ele parece engolido pelo excesso.
Ainda assim, Ladrões não é obra para meio-termo. É o tipo de filme que ou conquista pela energia crua ou repele pela mesma razão. Aronofsky reafirma sua condição de cineasta de risco: incapaz de entregar um thriller convencional, transforma uma trama de gato, chave e gangsters em ritual caótico de sobrevivência. Para alguns, uma viagem incômoda; para outros, exatamente o que o cinema deve ser — um assalto aos sentidos. Violentamente divertido.
Marcelo Minka

Graduado em licenciatura em Artes Visuais, especialista em Mídias Interativas e mestre em Comunicação com concentração em Comunicação Visual. Atua como docente em disciplinas de Artes Visuais, Semiótica Visual, Antropologia Visual e Estética Visual. Cinéfilo nas horas vagas. Me siga no Instagram: @marcelo_minka e @m_minka_jewelry
Leia todas as colunas de Cinema
(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente, a opinião do O LONDRINE̅NSE
