Bugonia e a incapacidade de compreender o outro

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Por Marcelo Minka

Numa época em que o mundo parece caminhar num terreno demasiadamente movediço, onde cada debate vira arena e cada fato vira suspeita, chega aos cinemas um filme que captura esse mal-estar coletivo com desconfortável precisão. Bugonia, novo longa de Yorgos Lanthimos (A Favorita, 2018), transforma paranoia social, crises ambientais e desigualdade em um thriller sarcástico que não dá trégua à nossa capacidade de negar o óbvio.

A história de Bugonia gira em torno de dois jovens conspiracionistas, interpretados por Jesse Plemons (The Power of the Dog, 2021) e Aidan Delbis estreando nas telonas, que sequestram a CEO de uma megacorporação, vivida por Emma Stone (La La Land, 2016), convencidos de que ela é uma alienígena infiltrada responsável pela destruição iminente da Terra. A situação, que começa quase como comédia absurda, descamba para algo mais sombrio, onde o riso trava na garganta e a violência simbólica do mundo real encontra seu reflexo exagerado. Lanthimos brinca com essa borda tênue entre humor e desespero, como se dissesse: “É isso que acontece quando ninguém mais confia em ninguém.”

Bugonia funciona como uma crítica direta ao abismo que separa elites corporativas e a população comum. A CEO parece pertencer a outro planeta não apenas pela premissa do filme, mas pela incapacidade de se comunicar com quem vive fora das bolhas de poder. Já os sequestradores, movidos mais por frustração e dor do que por ideologia, representam um tipo de desespero social que o cinema costuma evitar por ser desconfortável demais. Aqui, porém, esse desconforto é a própria matéria dramática. O filme expõe uma sociedade em que a realidade virou território contestado e a busca por culpados se tornou ritual de sobrevivência, afinal, alguém tem que ser culpado.

Bugonia começa como uma comédia, mas escala para o desespero. Menos sobre alienígenas e mais sobre alienação e a incapacidade coletiva de compreender o outro
Fotos: Divulgação

Bugonia: sem heróis, sem redenção

Se há um incômodo central em Bugonia, ele vem da recusa em oferecer qualquer ordem moral reconfortante. Não há heróis, não há redenção, não há explicação que acomode o espectador. Em vez disso, o filme revela um mundo onde a comunicação entre classes, crenças e visões de mundo se tornou praticamente impossível. Quando cada grupo fala sua própria língua, qualquer tentativa de diálogo soa como ruído intergaláctico. É esse ruído que Lanthimos transforma em matéria cinematográfica: a incapacidade coletiva de compreender o outro. E aqui está a discussão central da película, o quanto é difícil conviver com o que é diferente de nós.

Bugonia é, portanto, menos sobre alienígenas e mais sobre alienação. Menos sobre um sequestro e mais sobre o fracasso de uma sociedade que já não compartilha nem realidade, nem confiança, nem futuro. É um filme que incomoda porque revela, sem piedade, que estamos vivendo uma versão cotidiana e silenciosa desse mesmo colapso. E, ao final, a sensação que fica é de uma pergunta incômoda: e se o verdadeiro invasor não for de outro planeta, mas aquilo que nos tornamos?

Marcelo Minka

Mestre em Antropologia Visual (UEL), dá forma à linguagem estética da Angatu Joias, unindo arte, forma e símbolo em criações que revelam a poética entre design e significado. Artista visual e pesquisador, transita entre o pensamento e o fazer, inspirado pelas viagens, pelos sabores, pela natureza e pelas culturas que encontra pelo Brasil e pelo mundo. Cinéfilo nas horas vagas. Me siga no Instagram: @marcelo_minka 

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