A Longa Marcha: Caminhe ou Morra!

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Por Marcelo Minka

Num momento em que o país fermenta sua polarização e o debate público se move entre disputas morais, de poder e justiça, A Longa Marcha: Caminhe ou Morra surge como um espelho distópico, exagerado, mas incômodo, um alerta sobre quanto do espetáculo pode ser misturado à violência institucional, onde, passo a passo, sentimos um pavor e nojo compassado. Estreou no Brasil em 18 de setembro de 2025.

O filme é adaptação da obra literária The Long Walk, de Stephen King, autor de It: A Coisa – 1990. A trama se passa nos Estados Unidos após uma Grande Guerra que devastou a economia. Anualmente, realiza-se uma competição brutal: jovens caminham sem parar, numa marcha em ritmo mínimo, sob pena de morte para quem parar, tropeçar ou deixar de acompanhar o grupo. O prêmio é enorme, uma chance de vida muito melhor, mas o custo é inominável.

A direção de Francis Lawrence (Jogos Vorazes: Em Chamas – 2013) lida com esse conceito sombrio quase como uma coreografia cruel: as cenas mantêm uma tensão constante, a caminhada se torna metáfora de estagnação forçada, ambição e medo. A câmera não hesita em mostrar o sofrimento físico, pés feridos, cansaço que corrói a sanidade, nem os dilemas psicológicos: solidariedade, competição, traição.

Do elenco, Cooper Hoffman (Licorice Pizza – 2021) brilha: Ray Garraty, quando não está exausto, torna-se rosto humano de uma trama que corre risco de virar espetáculo barato de ultraviolência. David Jonsson (The Long Walk – 2025) cumpre bem o papel de Pete, que equilibra esperança, desespero e moralidade em conflito. Mesmo Mark Hamill (Star Wars: Uma Nova Esperança – 1977) tem momentos interessantes como o Major, figura de autoridade implacável cujo discurso parece sempre pronto para virar cinismo.

A marcha que vacila

A Longa Marcha é uma boa metáfora da estagnação forçada, ambição e medo. Mas vacila ao deixar de aprofundar os momentos políticos
Fotos: Divulgação

Onde o filme vacila: os momentos mais políticos, que poderiam aprofundar críticas sobre poder, desigualdade e propaganda, soam às vezes como inserções obrigatórias. Em vez de mergulhar fundo nessas questões políticas e existenciais, Lawrence parece incluir trechos que funcionam quase como marcação de presença, um “ok, aqui está o discurso crítico de King”, mas sem a mesma intensidade ou complexidade que poderia ter, sem mergulhar de fato no que essas palavras implicam no contexto atual. A repetição visual funciona para manter a tensão, mas também corre o risco de cansar; a linearidade do percurso limita surpresas estruturais.

Para o público que busca cinema que faça pensar, especialmente numa época de crise institucional e abalo social, este filme é um prato forte. Não é entretenimento leve, é vontade de ressaca moral: sair do cinema cogitando se já participamos de marchas assim, se já fomos usados como plateia de sofrimento alheio.

Marcelo Minka

Graduado em licenciatura em Artes Visuais, especialista em Mídias Interativas e mestre em Comunicação com concentração em Comunicação Visual. Atua como docente em disciplinas de Artes Visuais, Semiótica Visual, Antropologia Visual e Estética Visual. Cinéfilo nas horas vagas. Me siga no Instagram: @marcelo_minka e @m_minka_jewelry

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