100 Dias: uma produção de grande escala

BERTIOGA, SP, BRASIL, 12-09-2024: *MAR* Clipe Montagem Passagem de Tempo - Amyr rema vigorosamente em dia de muito sol e mar calmo.*MAR* Amyr bebe meia garrafa de água, e segue remando sem descanso.*MAR* Amyr rema com intensidade em baixo do sol intenso do meio dia. Ele ouve uma gaivota e acompanha até que vê Santa Helena. Grita de felicidade.*MAR* De pé na canoa, Amyr ergue um brinde para o mar circundante e joga a cachaça da caneca para o mar.Amyr rema + Amyr tira a sua posição sextante. Em 1984, encarando uma imensidão oceânica na costa africana, encontra-se Amyr Klink, um jovem destemido de 28 anos, determinado a realizar uma proeza épica: atravessar o perigoso oceano atlântico sul de volta para o Brasil em uma canoa a remo. O cenário é desolador, no inverno, com ondas ameaçadoras, o início da sua jornada parece a imprudência de um jovem teimoso. Diante de diversas aventuras, cria-se uma narrativa de autodescoberta onde um jovem marinheiro luta consigo mesmo e contra a sombra de um pai autoritário. Procurando seu próprio caminho na vida, e contra todas as probabilidades, Amyr cruzará o oceano atlântico sozinho em um pequeno barco a remo.O longa metragem produzido pelo Ventre Studio, dedicado à criação de narrativas singulares com energia para desenvolver, financiar, produzir e distribuir conteúdo premium para diversos territórios. (Foto: Adriano Vizoni/Pivô Audiovisual) DIVULGAÇÃO.

Por Marcelo Minka

Um repórter, Jô Soares, se não me engano, perguntou para Amyr Klink qual a cena mais emocionante que ele tinha visto na sua aventura, e ele respondeu que foi ter visto o próprio rosto refletido no olho de uma baleia. O maior risco de 100 Dias, adaptação do livro Cem Dias Entre Céu e Mar (1985), está na facilidade com que o cinema transforma um feito humano extraordinário em uma história de superação domesticada. Em 1984, Amyr Klink cruzou sozinho, a remo, o Atlântico Sul, da Namíbia à Bahia, durante 100 dias. O acontecimento dispensa adjetivos. A versão dirigida por Carlos Saldanha chega aos cinemas de Londrina com a obrigação de fazer algo mais difícil do que reconstruir a travessia, precisa encontrar o que há de humano por trás da façanha.

Filipe Bragança sustenta o protagonista num filme que aposta na dimensão visual do mar, na pequenez de um barco diante de uma paisagem sem fim e no esforço físico de permanecer em movimento. A natureza não é cenário ilustrativo, mas força indiferente, incapaz de se comover com determinação, coragem ou biografia. O oceano não sabe quem Amyr Klink é. Essa indiferença deveria ser o centro dramático da narrativa.

100 Dias é um espetáculo visual, com uma produção em grande escala. Mas deixa a desejar quando opta pelo olhar dramático seguro
Fotos: divulgação/Buena Vista International

100 Dias peca no conflito pai e filho

Em vez de confiar plenamente nesse confronto, o roteiro de 100 Dias procura no conflito entre pai e filho uma explicação para a decisão de partir. A escolha é compreensível como construção dramática, mas limita a complexidade do personagem. Enquadrar uma travessia dessa magnitude como resposta à desaprovação paterna reduz o desconhecido a uma psicologia familiar previsível e transformar risco em terapia é a forma mais confortável de neutralizá-lo.

Carlos Saldanha conhece o espetáculo, e a experiência em animação se manifesta no domínio de escala e imagem. Seu primeiro longa com atores em cena, porém, comprova que precisão técnica e profundidade dramática não são sinônimos. 100 Dias sabe mostrar o quanto o barco é pequeno, mas tem dificuldade em mostrar o que acontece com um homem quando deixa de haver plateia, testemunhas e certezas.

Há, ainda assim, um mérito importante. Em uma indústria que costuma procurar aventuras e personagens fora do país, 100 Dias coloca uma experiência brasileira no centro de uma produção de grande escala. Não precisa imitar Hollywood para justificar sua existência. O Brasil tem histórias suficientes para sustentar um cinema de aventura próprio. O desafio é não confundir valorização nacional com imunidade à crítica.

Amyr Klink atravessou o oceano porque transformou planejamento, disciplina e conhecimento dos próprios limites em ação, um feito extraordinário. 100 Dias tem imagens à altura do feito, mas um olhar dramático mais seguro do que corajoso. O homem foi mais longe do que o filme.

Marcelo Minka

Mestre em Antropologia Visual (UEL), artista visual e pesquisador, transita entre o pensamento e o fazer, inspirado pelas viagens, pelos sabores, pela natureza e pelas culturas que encontra pelo Brasil e pelo mundo. Cinéfilo nas horas vagas.

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