Acredito que todo caçula de família grande irá dividir essa história comigo. Herdar roupa e sapato de irmãos mais velhos é incompreensível quando se é pequeno e altamente recomendado depois de adulto.
Sou a filha mais nova de uma escada de quarto irmãos, os dois acima de mim, meninos. Eu, que já usava cabelo no estilo “Joãozinho “, passei boa parte da infância sem fazer a menor distinção de gênero. Para mim, tudo o que meus irmãos mais velhos faziam, eu também podia fazer. Dividi a bola, a queimada, o betsy e a bolinha de gude. Empinei pipa, nadei no rio e até a vida adulta, tive meu irmão Ricardo como meu cúmplice e confidente.
Mas voltando para as “heranças”, até as Havaianas passavam de pé em pé. Dei sorte de ter uma prima que, apesar de ser mais nova do que eu, cresceu mais rápido. Então, ela perdia roupas e calçados, para mim. Não esqueço umas botas de cano longo amarrada por ilhoses. Minha irmã disse que até hoje sente inveja daquele calçado.
E tem o vestido de debutante. Sim, me meti a rica, mesmo sendo pobre. Debutei num vestido branco, de um ombro só, cuja capa fazia a manga do outro ombro . E terminava em plumas no barrado. Coisa mais linda, mas que tive que devolver.
Passado o tempo, desenvolvi um gosto particular por roupas. Em particular, os vestidos. Poderia ter desenvolvido rejeição por roupas dos outros? Poderia. Mas para quem aprendeu a dividir desde cedo, não foi o que aconteceu. Conheci os brechós da vida. E amo procurar neles, peças exclusivas. Já comprei grife famosa a preço de banana. E isso muito antes deles virarem moda, como é hoje.
Acho a ideia de vender roupas usadas fantástica. Nos tempos em que vivemos, necessária. O processo de fabricação, em especial dos jeans, demandam muito uso de água. Para se ter uma ideia, um único par consome mais de 5 mil litros. Então, roupa usada também é ecológica.
A história dos brechós no Brasil é bastante curiosa. Dizem que lá no Rio de Janeiro , no Século 19, um português de nome Belchior abriu uma loja de roupas e objetos usados. É o que afirma o dicionário Houaiss, de 2004. O nome, por corruptela, transformou-se em “brechó”.
Um brechó pode vender além de roupas, livros, móveis e objetos usados. O sebo é o equivalente, só que com livros, discos, e filmes. Embora um brechó também possa vender tudo isso.
No ritmo em que vivemos, o escambo se torna cada vez mais necessário. Minhas amigas sabem que aceito – e faço doações. E hoje em dia sou apaixonada por estampas.
Estou longe de ser a rainha da elegância. Mas não existe nada melhor do que saber que, de alguma forma, estou contribuindo com o planeta. Não posso dizer o mesmo quando o assunto é sapatos. Pois é, preciso melhorar. Evoluir demora um pouco. Um dia deixo de ser centopeia.
Raquel Tannuri Santana

É jornalista, fotógrafa e cronista. Escreve esta coluna de segunda, com assuntos de primeira.
Foto: Carla Burke por Pixabay

