Carne de primeira para um presidente de segunda

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Num Brasil cheio de panelas vazias, assistir o presidente da república se esbaldar num churrasco regado a picanha Argentina, tem preço. E é bem alto. A tal picanha custa módicos 1.779 reais o quilo. E segundo a noticiário , fez tanto sucesso que esgotou nos açougues gourmets Brasil afora.

Maturada e toda trabalhada no marmoreio, a tal picanha deve ser dos deuses. Carne boa para churrasco, dizem os especialistas, é aquela entremeada de gordura, a chamada “carne marmorizada”. Para custar esse preço, fiquei imaginando como o boi deve ter sido criado. Lá nos pampas gringo. O feno deve ter sido cultivado por monges que vivem nos mosteiros distantes do Tibete, a água deve ter sido engarrafada na França. Só pode.

Na real, a picanha que veio da Argentina é de uma raça chamada wagyu, de origem japonesa e considerada a mais saborosa e cara do mundo.

Segundo a ABCWagyu, entidade que reúne criadores da raça , quanto maior o nível de marmoreio, maior é a remuneração pela carne, que pode chegar a 2,5 vezes o valor da arroba de uma carne comum.

Para conquistar um marmoreio de alta qualidade, o gado wagyu precisa ficar de 8 a 12 meses em confinamento, o que encarece o custo total de produção. Um animal da raça nelore, por exemplo, fica de 30 a 90 dias em média no confinamento.

O custo de produção de um wagyu depende muito do perfil do criador ou se ele faz o ciclo completo ou compra os animais, mas varia em torno de R$ 8 mil a R$ 12 mil por cabeça. A fase do confinamento – essencial para o marmoreio – representa cerca de 50% do valor total da produção.

Enquanto isso, o povão anda mesmo é comendo ovo. O famoso “zóiudo”. Estrelado. Com arroz, feijão e farofa. Segundo pesquisa, cada brasileiro comeu 251 ovos no ano passado. O aumento se deve ao alto valor da carne. Num país cujo salário mínimo (1.100 reais) compra 700 gramas da tal picanha, só nos resta o ovo. A minha parte queria jogar no presidente.

Raquel Tannuri Santana

Foto: Acervo pessoal

É jornalista, fotógrafa e cronista. Escreve esta coluna de segunda, com assuntos de primeira.

Foto: Klaus Nielsen no Pexels

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Uma resposta

  1. Com certeza, jamais comeremos essa picanha.
    E, se tivéssemos um Presidente à altura do Brasil, ele jamais comeria essa picanha também, se tivesse respeito pelo seu povo.
    Eu também jogaria minha parte nesse Presidente.

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