Psicólogo explica porque tanta gente acredita em coisas que deveria desconfiar
Telma Elorza
Equipe O LONDRINENSE
Quase todos os dias, ouvimos histórias sobre pessoas que caíram no conto do bilhete ou algum outro golpe, nos quais as vítimas acabam por entregar uma soma considerável de dinheiro aos golpistas. Na internet, também vemos pessoas com ótimo nível sócio-cultural repassar fake news dos mais variados tipos e assuntos – dos mais bizarros aos mais graves, que podem prejudicar outros – como se fosse verdades. Intrigado com esse tipo de comportamento, O LONDRINENSE foi procurar o dr. Marcos Garcia, psicólogo clínico e coordenador do curso de Psicologia da PUCPR campus Londrina, para tentar entender porquê isso ainda acontece. Confira a entrevista:
OL: O que faz as pessoas ainda acreditarem em golpes assim, onde é possível ganhar dinheiro fácil? É a ganância que cega a pessoa ou somos naturalmente crédulos?
MG: “Dois fatores importantes devem ser resgatados. Desde muito cedo aprendemos a seguir o que o outro diz, o que nos dá o caráter de ouvinte numa relação, e desde cedo aprendemos a fazer o que o outro faz, como na imitação. As habilidades de seguir e imitar o outro são comportamentos extremamente importantes para nossa sobrevivência. Então, em algum momento, seguimos e imitamos o outro (mesmo que nós sejamos o outro, como no caso de seguir o que falamos). Quando alguém lhe diz que existe outro caminho, e este é mais rápido, tendemos a procurar por ele. Quando alguém lhe diz sobre uma ferramenta que pode solucionar um problema, tendemos procurar e usar a ferramenta. Quando alguém está tendo sucesso comportando-se de uma forma específica, tendemos a imitar esta forma de fazer. Mas, quando alguém lhe diz que existe uma forma fácil de ganhar dinheiro, as operações envolvidas nisso são mais complexas e extremamente motivadoras. Primeiro, por envolver um tipo de evento (dinheiro) que me permite conquistar muitas coisas (comida, saúde, bebida, etc.), e segundo por ter um custo de resposta muito baixo, pouco esforço.”

“Dinheiro sempre foi um fator de controle do comportamento de quem tem e de quem não o detém, ninguém escapa do controle econômico. Sem dúvida, ter dinheiro é uma forma de poder, e quem o usa pode ser de forma coercitiva – fazendo com o que o outro se comporte do modo daquele que o detém (dinheiro) e deseja. Usar o dinheiro como forma de controle do comportamento de alguém não é uma prática atual, quem não se lembra das pirâmides que prometiam, ao final, enriquecimento daquele que conquistava outras pessoas para participar. Seguir o que as pessoas dizem e imitar alguém que tem sucesso fica mais intenso quando aquele que segue está em condições desprivilegiada. Quanto mais em privação a pessoa se encontra, mais aumenta a probabilidade de seguir o que o outro diz e faz, como numa relação de poder. Diante disso, estamos em uma relação mais complexa do que atribuir ao humano uma condição de ganância ou credulidade. É sabido que vivemos em condições econômicas instáveis e que a renda é distribuída desigualmente, então, usar a possibilidade de ganhar dinheiro fácil para ludibriar o outro não é difícil, pois dá certo; esta prática sempre vai existir, o que é necessário diante disso é denunciar quem faz, assim como entender que, diante de nossa falta de dinheiro, estamos vulneráveis. “
OL- “As pessoas estão cada vez mais agressivas na internet, chegando a comemorar a morte de uma criança. Isso levaria a supor que estão cada vez mais desconfiadas. Porém, continuam caindo em fake news, principalmente aquelas que são postadas no whatsapp ou no Facebook. Isso é algum padrão de comportamento? O que leva essas pessoas – algumas bem inteligentes, instruída – a acreditarem em notícias falsas?”
MG- “Assim como as pessoas são capazes de seguir e imitar o outro, como disse acima, são capazes de seguir e imitar a si mesmas. Então, as pessoas acreditam naquilo que se parece com o que pensam e dão significado ao mundo. O mundo passa a ser visto pela história da própria pessoa. Isso independe da condição da pessoa, seja ela inteligente, instruída, religiosa ou analfabeta. Olhamos (acreditamos) o mundo com nossa história. Pensar nesta forma de ver as coisas, nos faz duvidar do que é verdade. Até que prove ser falsa a notícia, encheu os olhos de quem acreditou nela, pois veio ao encontro do que acredita. A internet parece ter provocado as pessoas neste sentido. Lembrei de um velho ditado: ’o papel aceita qualquer coisa’, nos tempos de hoje poderia dizer ‘a internet aceita qualquer coisa’. Não estamos livres das opiniões dos outros, muitas vezes escritas como uma fidedignidade científica. Sou da opinião que os fatos falam mais alto. A internet não é um lugar de fatos e, para aumentar a complexidade dela, não tem filtros diante das notícias, ela me distancia dos fatos chegando ao ato cruel e atroz da comemoração da morte de uma criança, como um ato de vingança política. “
OL- Há algum meio de fazer essas pessoas compreenderem que estão sendo manipuladas? Que podem cair em golpes?
MG- “Alguns cuidados devem ser tomados. Um deles é saber de sua vulnerabilidade, quanto mais em privação, mais vulnerável. Muitas pessoas vão usar disso para conquistar as coisas. Outro ponto importante é saber que, seguir o que o outro diz e imitar o que faz, é parte de nossa condição natural. Siga e imite aqueles que apresentem correspondência entre o que falam e o que fazem. Pessoas que seguem o ditado: ‘faça o que eu digo e não faça o que eu faço’ pouco serão creditadas. Pessoas que não fazem o que falam vão cair em descredito. O problema é que nem sempre conseguimos acessar tal correspondência, mas como disse anteriormente, os fatos falam mais alto. Diante da primeira dica de que a pessoa está falando não é o que ela faz, ou o que você está observando não é o que ela diz, fique mais atento. Quanto a internet, bem! Lá só encontramos o que se diz dos fatos.”
Foto: Wokandapix on Pixabay


Uma resposta
Muito bom o texto! Principalmente por esclarecer que é possível educar as pessoas para uma leitura mais crítica dos outros e de si mesma.