Meus encontros com o poder

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Por André Luiz Lima

“Há um lugar dentro de mim onde o tempo cessa e a vida simplesmente é.”

Na arte dos encontros, vou buscando pistas — como uma rota, um diário de bordo — e, como a própria arte me ensina, aprendo a estar no agora, em presença, mesmo quando outros fatores tentam me tirar do caminho. O bom é saber que sempre podemos voltar ao caminho.

Hoje, as mãos que se levantam ainda são as de uma criança que vive em mim. Mas, agora, quem a guia sou eu — esse adulto que acolhe, protege e conduz.

Existe um lugar dentro de mim que me acompanha desde que me entendo por gente. Um lugar que não tem paredes, não tem limites e nem sequer exige que eu faça alguma coisa.

Basta estar.

Um lugar silencioso, onde o tempo parece suspenso e o mundo, de repente, fica em paz.

Quando eu era criança, nos dias em que visitava o sítio dos meus tios, costumava buscar esse lugar — sem saber o que fazia. Caminhava sozinho, deixava os olhos se perderem na paisagem, ouvia o som e sentia o cheiro da chuva, das folhas, dos pássaros… e, invariavelmente, ia até uma pedra.

Uma pedra que, para mim, era um mundo.

Nos meus encontros, aprendi que existe um lugar dentro de mim, desde criança. Um lugar silencioso, onde basta estar
Fotos: Acervo pessoal

Sentava-me ali. E só… observava. Silenciosamente. Profundamente.

Era como se eu e aquela pedra fôssemos cúmplices de algo muito maior do que eu podia compreender na época.

E, talvez, nem precise compreender até hoje. Basta lembrar. E ser.

Essa memória voltou forte nesses dias. Voltei a encontrar essa pedra — não mais no sítio da infância, mas dentro de mim.

Ela reapareceu no meio de um processo intenso de prática — o poder da arte, da consciência, do silêncio, da presença.

Enquanto mergulho nas lições que me ensinam a desfazer as ilusões, questionar as crenças e ver além do mundo que os olhos físicos conseguem enxergar.

Meus encontros

Na pedra da infância, eu aprendi — sem saber — o maior dos ensinamentos:

A presença.

O silêncio.

A comunhão com algo que não precisa ser nomeado.

A certeza de que há algo maior — dentro, não fora.

Percebo, agora, que talvez minha vida inteira tenha sido um caminho de volta para essa pedra. Para esse estado. Para esse poder.

Nos últimos tempos, enquanto observo o mundo, vejo os movimentos, as expectativas, os projetos que parecem se desmanchar e se reconstruir.

Percebo como tudo lá fora é impermanente, fluido, incerto…

E, ao mesmo tempo, como há um espaço dentro de mim que permanece sólido, firme, sereno.

A pedra nunca deixou de estar lá. Nem nunca sairá de mim.

É nela que volto quando o mundo parece pesado.

É nela que volto quando as respostas não vêm.

É nela que volto para me lembrar de que sou muito mais do que aquilo que o mundo diz que eu sou.

Hoje compreendo que os encontros da vida são, muitas vezes, reencontros conosco mesmo.
E que, por trás de cada pessoa que passa, de cada desafio, de cada aparente perda ou ganho, há sempre o convite para voltar.

Voltar para casa. Voltar para a pedra. Voltar para o silêncio. Voltar para o que é verdadeiro.

E se há algo que esses dias me ensinam — seja nas lições, seja na vida, seja nos encontros — é que tudo aquilo que é real jamais se perde.

A pedra da infância não era só uma pedra. Era — e ainda é — um portal.

Um lugar onde o mundo externo cessa, e o interno se expande.

Termino essa reflexão lembrando uma parte de um texto que tinha que interpretar durante um curso que fiz na Suíça:

“Não me corte as asas. Eu preciso voar.”

E percebo que, na verdade, sempre estive olhando para algo — como fazia na pedra. Esse olhar, às vezes perdido, às vezes fixo em algum ponto, me acompanha desde sempre como um chamado para voltar para dentro, para esse espaço onde tudo faz sentido.

Voltar à pedra da infância me diz, com toda a clareza, que eu já posso alçar voo.

Vamos? 

Viva a vida, André.

André Luiz Lima

Londrinense, ator, diretor, professor, palestrante e produtor cultural. Siga os Instagrans de André@allconnecting @aondevaiandre

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