Por André Luiz Lima
Meu extraordinário encontro de Ano Novo vem da conexão com meu extraordinário encontro de Natal, de quando eu era garoto e olhava o céu como um lugar de aconchego.
Sonhava em ser artista, brincava criando mundos coloridos de beleza, era apaixonado por tudo que voava e adorava avião.
Aqui sentado, esperando que o encontro se faça presente, por incrível que pareça quem se pronuncia foi um guarda-chuva.
Sim! Um guarda-chuva holandês.
Havia apenas chegado em Amsterdã para passar dois dias e finalmente voltar ao sol, ao aconchego, ao verde, à luz, ao Brasil.


Cheguei no inverno e uma amiga me deu um guarda-chuva que estava encostado, esquecido ali, sem uso, no lado de fora da porta do seu apartamento e em frente a uma escadaria de madeira que rugia quando pisava, rumo a entrada do prédio de três andares.
Eu tinha pouco tempo para percorrer Amsterdã no inverno.
Fiquei hospedado próximo da casa Anne Frank, museu que preserva o esconderijo da família Frank.
Para quem não sabe, Anne foi uma garota judia cheia de sonhos, ficou conhecida mundialmente após a publicação de “O diário de Anne Frank”, livro que narra os dois anos que passou por um confinamento entre 1942 e 1944, em razão da perseguição nazista aos judeus na Europa durante o período da Segunda Guerra Mundial. Ela e sua família viveram em um esconderijo, que foi chamado por ela de Anexo Secreto.



Confesso que não quis entrar ali, apenas fiquei parado alguns minutos, em silêncio, com frio, chuva e neve em cima de mim, olhando para uma fila de turistas esperando para entrar, eu meio que tentando entender a mensagem pois acabava de chegar da Polônia, que também viveu a forte perseguição. Trazia na bagagem a beleza da profundidade da frase de minha amiga Anna: “Podem acabar com tudo, mas a vida brota, André”.

Volto eu a caminhar com o guarda-chuva que me protegia e mesmo com as mãos congeladas por estar sem luvas, continuei. Relembro agora, as ruas, os canais, as cores das casas, milhares de bicicletas pelo caminho, a beleza do lugar, os museus, o distrito da luz vermelha, famoso bairro que abriga vitrines com mulheres vendendo seus serviços, muitos bares, coffeeshops que são lojas que vendem, com autorização do governo, não café, mas maconha.
E assim continuei. Estava caminhando por um canal com seus barcos moradias e o sol resolveu aparecer, a vida se fez presente, o guarda-chuva se fecha, eu o coloco em um apoio para ficar com as mãos livres para uma foto e percebo que ele se funde com a imagem fazendo parte de um todo harmônico. Nesse momento tudo fica em ordem por um instante como se tudo fizesse sentido.
Fazendo agora a conexão do meu encontro de ano que se inicia, assim como o claro e o escuro, luz e sombra e as oposições que nos trazem para o eixo, devemos olhar o entorno bem como seus detalhes, podemos nos olhar e consequentemente olhar o outro para dar sentido à vida.

O guarda-chuva no meio da paisagem se torna um e não há divisão.
Depois desses dois dias em Amsterdã, volto eu para o Brasil em um avião Azul, descanso em casa o sono dos justos e agradeço pela Arte dos Encontros que me dá sempre a rota do caminho a seguir.
A vida é para quem tem olhos para ver e o coração para sentir.
E eu ainda posso continuar a sonhar como um garoto.
Viva a vida, André!

André Luiz Lima
Londrinense, ator, diretor, professor, palestrante e produtor cultural
Foto: Acervo pessoal

Uma resposta
Viva os teus encontros, sempre provocam especiais emoções!