Por André Luiz Lima
Na arte dos encontros, nem toda cor está na tela.
Algumas só aparecem quando atravessamos o caminho.
Na última vez que escrevi aqui, disse que o mundo precisa da cor.
E precisa.


Mas não da cor como estética ou decoração.
Falo da cor como expressão — daquela que não se controla, que escapa e revela o que ainda não sabemos dizer sobre nós mesmos.
Com o tempo, entendi que essa cor não nasce pronta.
Ela surge quando nos permitimos sair do automático.
Quando desaceleramos.
Quando escutamos.
Quando, finalmente, encontramos.
Travessia
Foi a partir dessa percepção que comecei a desenhar o que hoje chamo de travessia.
Não é um roteiro.
Não é uma viagem de férias.
E definitivamente não é turismo tradicional.
É um deslocamento com intenção.
E, mais do que isso, é um caminho sustentado por algo essencial no meu trabalho: a alegria.
Não como euforia, mas como presença.
Uma alegria que permite atravessar.


Corpo no mundo
Em algum momento recente, esse deslocamento também pediu corpo no mundo.
Levou-me a sair do campo da ideia e entrar no campo da prática.
Foi assim que essa visão encontrou um novo território: um processo de mentoria e construção em campo com Nilsa Helena Ruse, gestora de turismo em caminhadas de longa distância.
O que começou como estrutura se transformou em experiência.


O que parecia desenho estratégico se revelou travessia.
Ali, entre escuta, território e presença, algo se organizou com mais clareza:
não se tratava mais de pensar roteiros,
mas de criar espaços onde as pessoas pudessem se encontrar.
O resultado desse processo não é um plano.
É o que agora se abre como experiência viva dentro do Brasil Extraordinário: uma travessia entre Ouro Preto e Catas Altas.
Um caminho onde o território deixa de ser cenário e passa a ser espelho.
Ouro Preto
Em Ouro Preto, não são apenas as igrejas barrocas ou as pedras das ladeiras que importam.
É o que elas provocam.
É o gesto de sentar em uma escadaria e, antes de qualquer explicação, respirar.
É encontrar mulheres que bordam não apenas tecidos, mas histórias.
Durante muito tempo, a agulha e a linha foram instrumentos de repetição e silêncio.
Hoje, quando retomamos esse gesto, algo muda.
A linha já não organiza apenas o tecido.
Ela começa a organizar o que está dentro.
A agulha deixa de costurar um destino imposto e passa a abrir caminho.


O bordado, ali, não é técnica.
É presença.
E, aos poucos, algo se revela com leveza.
Porque quando a expressão é acompanhada pela alegria, o processo deixa de ser peso e se torna descoberta.
Catas Altas
E, no meio disso tudo, há o silêncio.
O silêncio das montanhas em Catas Altas — aquele que não explica, mas reorganiza.
É diante da imensidão que o olhar descansa.
E quando o olhar descansa, o essencial começa a aparecer.
Depois vem a cor.
A tinta que escorre.
A mão que não controla.
O corpo que, por alguns instantes, desiste de acertar.
E, no meio disso, algo se abre: uma alegria inesperada.
Não por estar tudo resolvido, mas por finalmente poder ser vivido.
Aos poucos, aquilo que estava difuso ganha forma.
Ganha fio.
Ganha nome.
Eu dirijo experiências
Talvez seja isso que eu faço hoje.
Eu não levo pessoas para lugares.
Eu dirijo experiências.
Crio espaços onde encontros reais acontecem — com o território, com o outro e consigo mesma.
É um processo de tornar-se visível.
Não de fora para dentro, mas de dentro para fora.
Não é sobre ver mais.
É sobre ver diferente.
E é nesse espaço que algo se organiza.
E quando se organiza, a alegria aparece.
Não como objetivo, mas como sinal.
Coragem
Tenho aprendido que isso não é para todos.
Não por exclusividade, mas por disponibilidade.
Exige tempo.
Escuta.
E a coragem de não saber exatamente o que se vai encontrar.

Mas, de tempos em tempos, algo chama.
Não é um grito.
É um sussurro insistente.
Uma vontade de sair do lugar.
De viver com mais presença.
De parar de apenas entender…
e começar a sentir.
Apenas um passo
Se você chegou até aqui, talvez já tenha sentido.
E talvez não precise de mais explicações.
Apenas de um passo.
Porque algumas experiências não se explicam.
Se atravessam.
E algumas travessias não se planejam.
Se aceitam.
Compartilhar
Essa experiência que hoje se abre não foi criada para ser vendida.
Ela foi revelada para ser compartilhada.
Sigo abrindo e dirigindo essas travessias, em encontros que respeitam o tempo, o silêncio
e o que precisa emergir.
E algo acontece no final.
Aquilo que foi vivido — as imagens, os gestos, as conversas, o silêncio, o bordado, a tinta, a cor — não se perde.
Se transforma.
Aos poucos, esse material é reunido
e ganha forma em uma instalação artística.
Uma obra construída a partir da travessia.
Não como registro, mas como presença.
Um espaço onde o que foi vivido continua existindo — não mais apenas dentro de quem atravessou,
mas também fora.
Visível.
Compartilhável.
Vivo.
Intenção
Porque, no fundo, essa sempre foi a intenção:
não apenas viver uma experiência, mas permitir que ela continue atravessando outros.
E talvez reconhecer — que a alegria não está no final do caminho.
Ela é o próprio caminho quando nos permitimos atravessar.
Conversa
Se isso fez sentido para você, não precisa entender tudo agora.
Mas pode entrar em contato.
Às vezes, uma simples conversa já é o início da travessia.
Viva a arte do encontros
Viva a Vida, André!
Fotos: Benícia Ponciano – ASA Mulheres Bordadeiras de Ouro Preto
André Luiz Lima

Londrinense, ator, diretor, professor, palestrante e produtor cultural.
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Respostas de 2
Testo convincente!!! Grazie!!
Um texto brilhante, cheio de símbolos e significado, me transborda de alegria!!!! Que nossa mentoria se transforme em um campo fértil, cheio de bons momentos e construção sólida!